quinta-feira, agosto 05, 2010

Cotidiano


De repente todos as estações num dia. Gérberas cor de lava, chuva fina, frio, calor, tudo por resolver. Um café quente acalma. Através da janela do Porto eu procurava por um outro porto num reflexo fluido do céu que escorria pelo chão. Nem havia mar. Era outra vez aqueles desejos de ontem. Eles sempre chegam nesses meses, pontuais como a chuva fina das manhãs ainda tão frias. E tudo o que fora adiado se reproduzia, multiplicava. O adiamento é uma teia que se move, envolve e quando menos se espera o tempo de fazer se alarga e se torna um não-fazer fantasiado de espera. Dizem que o adiamento é a arte de manter o ontem. Mas eu nem relembro tanto assim. Queria fugir disso tudo num barco que nem o Amir - ir pra África a remo, ou pra Antártica isolado no gelo de um inverno bem distante. Queria encontrar um lugar todo de silêncio e paz. Mas descobri que não havia mais saídas para o mar. Ah, estes sentimentos cada vez mais frequentes. Deve ser o aniversário próximo, inferno astral, agosto - sempre as sombras das coisas perdidas, projetos. Mas o que mais me assombra é a minha memória dos tempos. Real como um filme. Ditosos eram aqueles dias encenados na minha nostalgia, quando eu imaginava ser eu. Agora eu apenas sou. E isso nunca se consegue deixar para depois. A gente finge que não e é. Olha pro lado, assovia, sorri, acena. A imitação de mim mesmo sempre foi uma fuga comum. Ser de verdade é muito complexo. Pergunte a uma gérbera cor de lava salpicada de gotas de chuva. Não há resposta.

agosto, 2010

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