terça-feira, julho 20, 2010

Voar, Saltar



Pode parecer um tanto enigmático como surgem as ideias. Eu queria apenas escrever sobre um leão, algumas nuvens e a lua recorrente de uma lembrança cada vez mais longínqua. Eu queria também contar sobre as minhas perdas de um modo menos pessoal, através da busca humana pelo prazer absoluto, sem remorsos. Nesta tentativa descobri simplesmente que não há maior prazer do que esta alegria quase inumana que brota do alívio. Uma sensação de leveza depois que tudo passou e não resta mais nenhum desejo. É como ter a alma livre depois de abandonar uma pele dura e velha. De repente, a busca de qualquer paraíso dá simplesmente nisto: na sensação de tranquilidade passageira entre os estágios de uma vida que segue e volta em círculos cada vez mais amplos. Daí o sorriso impenetrável dos monges que conseguem se manter nesse limbo agradável entre as procuras cotidianas. Num outro momento breve de clarividência, percebi que não tenho mais migalhas pra marcar o caminho e retornar. Tudo mudou e eu me perdi. Mas acho que isso também é um problema só meu, que não sou tão budista e tento diariamente me equilibrar no fio que conecta o êxtase e a estase. Viver ainda não deixou de ser esta ansiedade pra mim. Esta incerteza do meu propósito no mundo, mas sem o alento de antes do meu despertar. A velocidade imponderável do tempo, enquanto estanco e passo, me diz que nunca chegarei lá. E o que me resta é conviver com a dúvida que nunca me definirá. Devo acolher as possibilidades de ser neste eu que simplesmente eu sou, alternando o meu sustento entre rompantes de arrogância e brilhos de vaidade? Por algum tempo será. Confio no caminho nada óbvio do aprendizado. Imaginarei voar em cada queda. Em cada intervalo entre as quedas abandonar-me-ei como se livre eu estivesse. Naquele momento breve os pés esquecerão a firmeza do chão.

julho, 2010

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