sábado, julho 17, 2010

Norte


Foto: Geraldo Soares
O sonho era quando. O tempo era apenas os dias, passava simplesmente, sem calendários e relógios. Não havia palavras para o mundo exceto o novo, o desconhecido, o surpreendente. Era simples: o que havia ao redor era mudo e por dentro quase nem se percebia. Acordar acontece aos poucos. Nuvens, à primeira vista, eram formas brancas contra os azuis fluindo no vento. Os leões, ainda silenciosos, não eram o medo e aprisionavam lendas num olhar. Mas como tudo muda no mundo, logo vêm as descobertas. O mundo é simplesmente mudar. Aos poucos o tempo tinha que ser e os dias, os números, e as coisas pra contar. Também havia os nomes, coisas, lugares com nomes e coisas desconhecidas que mereciam nomes. Tempo, palavras e os sentidos supostos para cada sensação. Caminhos contra o vento. Ventos cheios de nuvens, de dúvidas, de leões famintos que resumiam os medos de agora; medos finitos, medos constantes. A fala eternamente ansiosa, margeando a vontade de ser alguma coisa além do que se quer dizer. No mesmo sonho um homem nascia e jazia imberbe das próprias experiências. O seu reflexo que não era imagem - era rugido – ecoava sem fim, porém sem transcendências. Acordado, agora percebe que até o vento abandona as nuvens e carrega consigo a voz dos leões. Quando encontra os desertos, ergue as areias. Quando encontra os mares, sustenta as ondas. O eterno que não flui, nega a lembrança.
julho, 2010

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