domingo, julho 25, 2010

Contraponto



As vezes sou transcendental
Outras vezes rastejo
Como um animal

Alguns dias eu sou dor
Outros dias, sorte

Sou aquele que duvida
E o mesmo que se arrisca
Até a morte.

Se sou (pra você) distante
Posso também ser o próximo.


jul, 2010

quinta-feira, julho 22, 2010

Virulência



E o corpo
Está ali entregue
Quem sabe morto

De tão longe se viu
Além de antes do porto
Onde nau e deriva
Não tem mar
Tampouco ar
Nem amar desarmado

Eita, vida desalmada!

julho, 2010

quarta-feira, julho 21, 2010

Pacto



As vezes sou tão ambicioso que me descubro sem posses. Neste momento sinto uma vontade irresistível de empenhar minha alma com um diabo qualquer. Mas almas não valem mais a pena. Almas são muito leves, etéreas... Quem pagaria por algo que não pode levar e que muda sempre. E essa sensação de não ter como pagar é tão frustrante como se descobrir incapaz de burlar a lei suprema que rege a queda dos corpos. Nenhum corpo caiu por aqui até agora. A lei da gravidade é pródiga, mas não tem boa pontaria.


julho, 2010

terça-feira, julho 20, 2010

Voar, Saltar



Pode parecer um tanto enigmático como surgem as ideias. Eu queria apenas escrever sobre um leão, algumas nuvens e a lua recorrente de uma lembrança cada vez mais longínqua. Eu queria também contar sobre as minhas perdas de um modo menos pessoal, através da busca humana pelo prazer absoluto, sem remorsos. Nesta tentativa descobri simplesmente que não há maior prazer do que esta alegria quase inumana que brota do alívio. Uma sensação de leveza depois que tudo passou e não resta mais nenhum desejo. É como ter a alma livre depois de abandonar uma pele dura e velha. De repente, a busca de qualquer paraíso dá simplesmente nisto: na sensação de tranquilidade passageira entre os estágios de uma vida que segue e volta em círculos cada vez mais amplos. Daí o sorriso impenetrável dos monges que conseguem se manter nesse limbo agradável entre as procuras cotidianas. Num outro momento breve de clarividência, percebi que não tenho mais migalhas pra marcar o caminho e retornar. Tudo mudou e eu me perdi. Mas acho que isso também é um problema só meu, que não sou tão budista e tento diariamente me equilibrar no fio que conecta o êxtase e a estase. Viver ainda não deixou de ser esta ansiedade pra mim. Esta incerteza do meu propósito no mundo, mas sem o alento de antes do meu despertar. A velocidade imponderável do tempo, enquanto estanco e passo, me diz que nunca chegarei lá. E o que me resta é conviver com a dúvida que nunca me definirá. Devo acolher as possibilidades de ser neste eu que simplesmente eu sou, alternando o meu sustento entre rompantes de arrogância e brilhos de vaidade? Por algum tempo será. Confio no caminho nada óbvio do aprendizado. Imaginarei voar em cada queda. Em cada intervalo entre as quedas abandonar-me-ei como se livre eu estivesse. Naquele momento breve os pés esquecerão a firmeza do chão.

julho, 2010

domingo, julho 18, 2010

Lunátco


Foto: Geraldo Soares

Eu anseio uma verdade metafísica — Eu sonho. Enquanto a humanidade elabora toda uma filosofia, eu apenas sonho. Viver acordado é deveras complicado. Prefiro imaginar as formas das nuvens! Prefiro me perder no quem me dera fosse real, nos quantos mundos eu teria... E assim, busco um modo de ser que me revele a grande novidade dos dias, num devaneio repleto de esperas, à medida que eu contemplo. Este é o modo da minha procura desencaminhada e sem sacrifico, com arte e um pouco de ofício. O resto é pura invenção. É a prática do que eu nem sei descobrir enfeitada pelas coisas que eu ainda não desaprendi. As memórias desta vida aqui não preencherão o meu silêncio. E esse será o valor. Há palavras demais neste paradoxo de alma alheio a lua. A poesia suportável nem merece ser escrita.

julho, 2010

sábado, julho 17, 2010

Norte


Foto: Geraldo Soares
O sonho era quando. O tempo era apenas os dias, passava simplesmente, sem calendários e relógios. Não havia palavras para o mundo exceto o novo, o desconhecido, o surpreendente. Era simples: o que havia ao redor era mudo e por dentro quase nem se percebia. Acordar acontece aos poucos. Nuvens, à primeira vista, eram formas brancas contra os azuis fluindo no vento. Os leões, ainda silenciosos, não eram o medo e aprisionavam lendas num olhar. Mas como tudo muda no mundo, logo vêm as descobertas. O mundo é simplesmente mudar. Aos poucos o tempo tinha que ser e os dias, os números, e as coisas pra contar. Também havia os nomes, coisas, lugares com nomes e coisas desconhecidas que mereciam nomes. Tempo, palavras e os sentidos supostos para cada sensação. Caminhos contra o vento. Ventos cheios de nuvens, de dúvidas, de leões famintos que resumiam os medos de agora; medos finitos, medos constantes. A fala eternamente ansiosa, margeando a vontade de ser alguma coisa além do que se quer dizer. No mesmo sonho um homem nascia e jazia imberbe das próprias experiências. O seu reflexo que não era imagem - era rugido – ecoava sem fim, porém sem transcendências. Acordado, agora percebe que até o vento abandona as nuvens e carrega consigo a voz dos leões. Quando encontra os desertos, ergue as areias. Quando encontra os mares, sustenta as ondas. O eterno que não flui, nega a lembrança.
julho, 2010