domingo, junho 27, 2010

Despertar


Chove há dias em Porto Alegre. Os caracóis desenham o próprio caminho nas paredes e nem sabem para onde vão. Eu acordei cansado e feliz porque perdi o caminho. Simplesmente desisti de ser quem perde sem perder. Percebi que perder é a atitude do verdadeiro vencedor. Não que eu tenha alguma vitória como objetivo. Vencer é o meio do caminho. "O vencedor" é aquele que abre a mão de tudo, pois não há nada realmente que valha a pena lutar mais do que a liberdade. Ser livre vale mais do que todos os louros, reconhecimentos e troféus. No entanto, ninguém quer perder de verdade, ningém quer ser livre. Há responsabilidade demais e solidão na liberdade. Poucos se arriscaram tanto. Mas sinto que me aproximaei (alguns milímetros) do que eu realmente quero ser. E, depois desta descoberta, acordo todos os dias com tamanha alegria que achei ter perdido a minha inspração. O ar da alma falta neste tipo de felicidade. Até as ostras perdem as pérolas se não há dor. O olhar se cega por um momento. Mas, de repente, há o desafio redescoberto. Há um além, pois toda descoberta é o breve início de tudo. E se é redescoberta é reinício... Inícios interiores por dentro dos inícios redescobertos diariamente em inspirações espirais como a concha dos caracóis. Eles são lentos, breves e precisos. Continuam dia e noite lambendo o prório caminho, saboreando cada distância. E se vem a noite, nem dormem. O que resta é acordar.
junho, 2010

domingo, junho 06, 2010

Mar Interior


Meu coração nunca foi náufrago
Ele é uma ilha em espiral
Cercado de mar por todos os lados
Até por dentro.


Junho, 2010

A Minha Arte


foto e montagem: Geraldo Soares

"The art of losing isn't hard to master;
so many things seem filled with the intent

to be lost that their loss is no disaster."
(Elisabeth Bishop)

Descobri que sou personagem
De uma arte, da minha arte
Sim, Elisabeth
Eu perco pessoas,
Aprendi com sacrifício
Mas hoje faço isto tão docemente

Olhe!
Como sei bem a tua lição
Que hoje o (meu) mundo não dura
Sequer em mim mesmo
(Eu o desejo lá)

Ah... Tantas pessoas!
E que foram minuciosamente perdidas
Feito a imagem num vitral partido
Assim também desaprendi a sentir
Senti tanto e tão raso
Senti tão profundamente e pouco

Um + um + um + um + um...
E na infinidade dos eus
Nos eus em que me reparti
Me descobri inteiro
Naqueles que eu perdi.

junho, 2010