sábado, abril 17, 2010

Efeméride



Gosto de pensar assim. Gosto deste sonho, desta fantasia. Talvez do teu lado eu encontrasse a compreensão que eu sempre busquei no outro. E, agora que sei o que é . Merda! Sei também que a vida é assim mesmo. Nada é pra ser o que deveria ser. A vida simplesmente é e a gente toda tem que aprender a lidar com isso, com a frustração, com essa grande decepção que é esperar demais e encontrar o que é preciso, mas compreender muito depois. Tarde? Merda! A vida toda eu te esperei. Mas eis que te encontro do outro lado de um Rio, num outro abismo, repleto de pássaros, cujos nomes não sei pronunciar. Neste tempo, diriam os astrólogos, havia uma conjunção astral - minha lua enquadrada no teu sol. E como tu sorrias bonito depois que aquele astro desgovernado levou a tua presença. Mas quem poderia prever que longe tu serias assim tão presente? Só eu mesmo pensaria em sincronicidades. Só eu mesmo veria estes padrões em eventos tão aleatórios. Só eu mesmo construiria delicadamente esta teia de afetos. Tudo isto eu faria igual. Panta rei, tudo flui - não sei para onde. Panta rei, tudo flui - não é preciso saber. Nós - sim, e contra todas as expectativas filosóficas - nos banhamos na mesma água daqlele Rio. Nós mesmos reconhecemos o sabor daquele sal. Nós temos histórias tão opostas que irmãs. Assim, firmamos um acordo naquele tempo, quando caberia para muitos apenas um breve olhar. E era esse tipo de eternidade que procurávamos e não admitíamos. Na loucura que domina a nossa cabeça sã, insana é a rotina dos dias dessa gente humana. Nós sabemos o que é sonhar.
abril, 2010

quarta-feira, abril 14, 2010

Poética


Não
Há poesia
Em toda poesia suposta

Certamente que não
É apenas imitação

Compreender a voz do vento
Se o vento falasse
Ouvir o sussurar do silêncio
Se o silêncio (aos poucos) se calasse

Isto sim
Traria alento pro meu coração.


abril, 2010
foto: Geraldo Soares

terça-feira, abril 06, 2010

Clavícula


Meu coração navegante. Meu coração marítimo sem mar. Meu coração viajante espera encerrado na distância. Chave e segredo. Chave que abre o centro deste mundo. Mas o tempo é uma dimensão fugidia. Raptor do momento preciso enquanto se espera. O tempo é um deus traidor, que corrói a confiança dos homens na eternidade. E o que há de eterno naquele olhar cheio de ternura? O que permanece além das cinzas do que ardeu um dia? Hálito de vento. Amor em ondas. Aqueles corpos exaustos a beira do que já foi um mar. Ah... Apoia a mão no meu ombro, Amor, que eu te amparo. Não segue esse futuro. O amanhã não deixa pegadas na areia e se deixasse cada maré seria um esquecimento. Tudo é o porvir. Tudo é desconhecer o que a tempestade trouxe nas vagas. Mas eu ainda lembro da maresia, no cheiro dos teus cabelos. Maresia ao redor da minha cabeça girando - minha tontura. Maresia, teu nome é lucidez! Sonhei então que eu era um peixe, mas não queria nadar. Sonhei que eu era prisioneiro do teu litoral e nem sabia o que era amar. Perdido todo sal, o oceano estreito é como um Rio. Margem e limite. Margem paralela do horizonte. Margem sem fim. Fui peixe sim - eu não tinha pés.
abril, 2010