segunda-feira, dezembro 06, 2010

Naufrágil




Um coração náufrago antes de partir
Foi tragado por um deserto que era mar

Com vastas areias sem vaga sentida
Resta ao náufrago apenas sonhar

Um sonho cujo caminho é esquecido
Imperfeito num eterno dormitar.

Dezembro, 2010

quarta-feira, novembro 03, 2010

domingo, outubro 31, 2010

(Resposta) pro Adriano



foto: Geraldo Soares

Minha felicidade

É simples e profunda

É uma sensação de plenitude
Consciente de tudo que perdi
Do que me falta...

Mas no fundo
Bem lá no fundo
Nada me faz falta.

outubro, 2010

sábado, outubro 09, 2010

Considerações Breves do Paraquedista Imaginário



Quem pensa como eu, as vezes duvida da existência de gente que pensa como eu. Amo tanto a liberdade quanto me libertar. E, assim, algumas prisões assumem um papel perigosamente positivo na minha vida. Talvez este seja o esporte radical de um homem pacato e comum que nunca vai saltar de para-quedas.


Cair assim faz a vida durar.

A grande questão que se resolve cair não é descobrir a distância entre o céu e o chão. Quando se cai não há tempo de ponderar sobre as distâncias. Ao cair se descobre que ficar no ar é o mais duro.

Não dá pra cair onde se quer. Todo tipo de queda é imprevisível. Previsível é apenas quem cai.

Cair é uma forma de amar o vento. Quem voa exerce uma forma de escravidão. Obriga o vento a servir as asas e sustentar um corpo que não suporta o próprio peso.

Quem cai flui.

Quem cai se prepara para um segundo salto.

Cair não é o caminho do abismo. Cair é abismar-se.


outubro, 2010

terça-feira, setembro 28, 2010

Poema Natural III



Gosto dos desesperos de gérberas
Nascem verdes
Vivem cor de lava
Sobrevivem ao corte
Murcham silenciosas
Deixam sementes

setembo, 2010

segunda-feira, setembro 27, 2010

Bien du Siècle


Não há sofrimento
Nenhuma dor q
O que queima
Está nessas letras

Música antiga
Tantos romances trágicos
Belo é não se repetir

Não busco metades
Minh'alma não deseja
O que falta.

setembro, 2010


sábado, setembro 25, 2010

Obrigado


Foto: Fábio Schuch

Do mar pra nuvem

Da nuvem pro rio
Do rio pro mar


Tudo assim interminável ciclo
Tudo passa
Tudo volta
Tudo, tudo mesmo permanece


setembro, 2010

quarta-feira, setembro 22, 2010

Somniu



Foto: Geraldo Soares

Sonho um vôo sem fim
Sem motivos pro fim
Só mistérios
Intermináveis dúvidas
Negro infinito entre as estrelas

Insistentemente existo
Neste breve momento de perdição
Quando vou
Vôo pra bem longe

E ao partir
Não vou inteiro
Me falta um pedaço

setembro, 2010

sábado, setembro 18, 2010

quarta-feira, agosto 25, 2010

Fogo Fátuo


Foto: Geraldo Soares

Anjo frio
Dormita sobre o fogo do teu sonho
Queima silencioso e insone
Admira tua dádiva de vida
Bem depois da alma jazida e dura
O teu pó.

agosto, 2010

Shiva


Não
Não desejo encontrar quem me complete
Dispenso quem me construa
Prefiro alguém mais forte
Alguém que me destrua.

agosto, 2010

quinta-feira, agosto 05, 2010

Cotidiano


De repente todos as estações num dia. Gérberas cor de lava, chuva fina, frio, calor, tudo por resolver. Um café quente acalma. Através da janela do Porto eu procurava por um outro porto num reflexo fluido do céu que escorria pelo chão. Nem havia mar. Era outra vez aqueles desejos de ontem. Eles sempre chegam nesses meses, pontuais como a chuva fina das manhãs ainda tão frias. E tudo o que fora adiado se reproduzia, multiplicava. O adiamento é uma teia que se move, envolve e quando menos se espera o tempo de fazer se alarga e se torna um não-fazer fantasiado de espera. Dizem que o adiamento é a arte de manter o ontem. Mas eu nem relembro tanto assim. Queria fugir disso tudo num barco que nem o Amir - ir pra África a remo, ou pra Antártica isolado no gelo de um inverno bem distante. Queria encontrar um lugar todo de silêncio e paz. Mas descobri que não havia mais saídas para o mar. Ah, estes sentimentos cada vez mais frequentes. Deve ser o aniversário próximo, inferno astral, agosto - sempre as sombras das coisas perdidas, projetos. Mas o que mais me assombra é a minha memória dos tempos. Real como um filme. Ditosos eram aqueles dias encenados na minha nostalgia, quando eu imaginava ser eu. Agora eu apenas sou. E isso nunca se consegue deixar para depois. A gente finge que não e é. Olha pro lado, assovia, sorri, acena. A imitação de mim mesmo sempre foi uma fuga comum. Ser de verdade é muito complexo. Pergunte a uma gérbera cor de lava salpicada de gotas de chuva. Não há resposta.

agosto, 2010

domingo, julho 25, 2010

Contraponto



As vezes sou transcendental
Outras vezes rastejo
Como um animal

Alguns dias eu sou dor
Outros dias, sorte

Sou aquele que duvida
E o mesmo que se arrisca
Até a morte.

Se sou (pra você) distante
Posso também ser o próximo.


jul, 2010

quinta-feira, julho 22, 2010

Virulência



E o corpo
Está ali entregue
Quem sabe morto

De tão longe se viu
Além de antes do porto
Onde nau e deriva
Não tem mar
Tampouco ar
Nem amar desarmado

Eita, vida desalmada!

julho, 2010

quarta-feira, julho 21, 2010

Pacto



As vezes sou tão ambicioso que me descubro sem posses. Neste momento sinto uma vontade irresistível de empenhar minha alma com um diabo qualquer. Mas almas não valem mais a pena. Almas são muito leves, etéreas... Quem pagaria por algo que não pode levar e que muda sempre. E essa sensação de não ter como pagar é tão frustrante como se descobrir incapaz de burlar a lei suprema que rege a queda dos corpos. Nenhum corpo caiu por aqui até agora. A lei da gravidade é pródiga, mas não tem boa pontaria.


julho, 2010

terça-feira, julho 20, 2010

Voar, Saltar



Pode parecer um tanto enigmático como surgem as ideias. Eu queria apenas escrever sobre um leão, algumas nuvens e a lua recorrente de uma lembrança cada vez mais longínqua. Eu queria também contar sobre as minhas perdas de um modo menos pessoal, através da busca humana pelo prazer absoluto, sem remorsos. Nesta tentativa descobri simplesmente que não há maior prazer do que esta alegria quase inumana que brota do alívio. Uma sensação de leveza depois que tudo passou e não resta mais nenhum desejo. É como ter a alma livre depois de abandonar uma pele dura e velha. De repente, a busca de qualquer paraíso dá simplesmente nisto: na sensação de tranquilidade passageira entre os estágios de uma vida que segue e volta em círculos cada vez mais amplos. Daí o sorriso impenetrável dos monges que conseguem se manter nesse limbo agradável entre as procuras cotidianas. Num outro momento breve de clarividência, percebi que não tenho mais migalhas pra marcar o caminho e retornar. Tudo mudou e eu me perdi. Mas acho que isso também é um problema só meu, que não sou tão budista e tento diariamente me equilibrar no fio que conecta o êxtase e a estase. Viver ainda não deixou de ser esta ansiedade pra mim. Esta incerteza do meu propósito no mundo, mas sem o alento de antes do meu despertar. A velocidade imponderável do tempo, enquanto estanco e passo, me diz que nunca chegarei lá. E o que me resta é conviver com a dúvida que nunca me definirá. Devo acolher as possibilidades de ser neste eu que simplesmente eu sou, alternando o meu sustento entre rompantes de arrogância e brilhos de vaidade? Por algum tempo será. Confio no caminho nada óbvio do aprendizado. Imaginarei voar em cada queda. Em cada intervalo entre as quedas abandonar-me-ei como se livre eu estivesse. Naquele momento breve os pés esquecerão a firmeza do chão.

julho, 2010

domingo, julho 18, 2010

Lunátco


Foto: Geraldo Soares

Eu anseio uma verdade metafísica — Eu sonho. Enquanto a humanidade elabora toda uma filosofia, eu apenas sonho. Viver acordado é deveras complicado. Prefiro imaginar as formas das nuvens! Prefiro me perder no quem me dera fosse real, nos quantos mundos eu teria... E assim, busco um modo de ser que me revele a grande novidade dos dias, num devaneio repleto de esperas, à medida que eu contemplo. Este é o modo da minha procura desencaminhada e sem sacrifico, com arte e um pouco de ofício. O resto é pura invenção. É a prática do que eu nem sei descobrir enfeitada pelas coisas que eu ainda não desaprendi. As memórias desta vida aqui não preencherão o meu silêncio. E esse será o valor. Há palavras demais neste paradoxo de alma alheio a lua. A poesia suportável nem merece ser escrita.

julho, 2010

sábado, julho 17, 2010

Norte


Foto: Geraldo Soares
O sonho era quando. O tempo era apenas os dias, passava simplesmente, sem calendários e relógios. Não havia palavras para o mundo exceto o novo, o desconhecido, o surpreendente. Era simples: o que havia ao redor era mudo e por dentro quase nem se percebia. Acordar acontece aos poucos. Nuvens, à primeira vista, eram formas brancas contra os azuis fluindo no vento. Os leões, ainda silenciosos, não eram o medo e aprisionavam lendas num olhar. Mas como tudo muda no mundo, logo vêm as descobertas. O mundo é simplesmente mudar. Aos poucos o tempo tinha que ser e os dias, os números, e as coisas pra contar. Também havia os nomes, coisas, lugares com nomes e coisas desconhecidas que mereciam nomes. Tempo, palavras e os sentidos supostos para cada sensação. Caminhos contra o vento. Ventos cheios de nuvens, de dúvidas, de leões famintos que resumiam os medos de agora; medos finitos, medos constantes. A fala eternamente ansiosa, margeando a vontade de ser alguma coisa além do que se quer dizer. No mesmo sonho um homem nascia e jazia imberbe das próprias experiências. O seu reflexo que não era imagem - era rugido – ecoava sem fim, porém sem transcendências. Acordado, agora percebe que até o vento abandona as nuvens e carrega consigo a voz dos leões. Quando encontra os desertos, ergue as areias. Quando encontra os mares, sustenta as ondas. O eterno que não flui, nega a lembrança.
julho, 2010

domingo, junho 27, 2010

Despertar


Chove há dias em Porto Alegre. Os caracóis desenham o próprio caminho nas paredes e nem sabem para onde vão. Eu acordei cansado e feliz porque perdi o caminho. Simplesmente desisti de ser quem perde sem perder. Percebi que perder é a atitude do verdadeiro vencedor. Não que eu tenha alguma vitória como objetivo. Vencer é o meio do caminho. "O vencedor" é aquele que abre a mão de tudo, pois não há nada realmente que valha a pena lutar mais do que a liberdade. Ser livre vale mais do que todos os louros, reconhecimentos e troféus. No entanto, ninguém quer perder de verdade, ningém quer ser livre. Há responsabilidade demais e solidão na liberdade. Poucos se arriscaram tanto. Mas sinto que me aproximaei (alguns milímetros) do que eu realmente quero ser. E, depois desta descoberta, acordo todos os dias com tamanha alegria que achei ter perdido a minha inspração. O ar da alma falta neste tipo de felicidade. Até as ostras perdem as pérolas se não há dor. O olhar se cega por um momento. Mas, de repente, há o desafio redescoberto. Há um além, pois toda descoberta é o breve início de tudo. E se é redescoberta é reinício... Inícios interiores por dentro dos inícios redescobertos diariamente em inspirações espirais como a concha dos caracóis. Eles são lentos, breves e precisos. Continuam dia e noite lambendo o prório caminho, saboreando cada distância. E se vem a noite, nem dormem. O que resta é acordar.
junho, 2010

domingo, junho 06, 2010

Mar Interior


Meu coração nunca foi náufrago
Ele é uma ilha em espiral
Cercado de mar por todos os lados
Até por dentro.


Junho, 2010

A Minha Arte


foto e montagem: Geraldo Soares

"The art of losing isn't hard to master;
so many things seem filled with the intent

to be lost that their loss is no disaster."
(Elisabeth Bishop)

Descobri que sou personagem
De uma arte, da minha arte
Sim, Elisabeth
Eu perco pessoas,
Aprendi com sacrifício
Mas hoje faço isto tão docemente

Olhe!
Como sei bem a tua lição
Que hoje o (meu) mundo não dura
Sequer em mim mesmo
(Eu o desejo lá)

Ah... Tantas pessoas!
E que foram minuciosamente perdidas
Feito a imagem num vitral partido
Assim também desaprendi a sentir
Senti tanto e tão raso
Senti tão profundamente e pouco

Um + um + um + um + um...
E na infinidade dos eus
Nos eus em que me reparti
Me descobri inteiro
Naqueles que eu perdi.

junho, 2010

quinta-feira, maio 20, 2010

Pequena História da Vida II



Foi como um cometa que passou rasgando uma noite sem estrelas, sem lua. Foi assim, eu sei - um encontro dura muito pouco. Três anos, enquanto passam, parecem intermináveis. Mas não sabemos nada sobre as eternidades, incapazes (que somos) de vivê-las. Na verdade, tudo se passou num átimo de incosciência - como um eclipse. Depois que a tua sombra deixou o meu céu: meu mundo, repentinamente tão claro. Lembrei agora de toda a nossa história num segundo. Quanto esse tempo valeria se comparado ao que leva pra aquele cometa completar a sua órbita e voltar? Certamente, vale o que se compreende. Este nosso momento breve, este que a nossa cabeça pequena consegue alcançar, vale pelo que nos tira do sono renitente que dificulta o acordar. Duvido que tenha acontecido com você - creio que não - quando acordei daquela incosciência, simplesmente cansei de gostar de você. Gostar também é um evento cósmico, como a passagem breve de um cometa ou um eclipse. Aproveitado - ou não - o momento passa. Chega uma hora: a vida estoura. Sai cantando por aí e larga a casca pra trás, como uma cigarra. E o que sobra é uma coisa leve que a brisa leva. E depois da brisa pode até haver uma chuva, quase sempre há. Assim são as estações. Quantas vezes eu quis te falar da chuva e você não entendeu. Algo simples que até as lesmas aprendem. Com isto, lentamente engolem as suas casas e ganham o mundo. Logo elas, cujo tempo é tão mais breve que o nosso, fazem uma eternidade. Os caracóis também fogem da chuva mas precisam carregar muita bagagem. Nao se deve esquecer que, depois da chuva, tudo - simplesmente tudo - deixa um rastro.

maio, 2010

terça-feira, maio 04, 2010

Europa


Teus olhos opacos
Teus olhos perdidos
Por onde anda a tua vida
Que seres te habitam?

Eu que nunca te vi
Te desconheço
Eu que nunca te vi
Sei que não és real

Não importa o quando
Tão longes distâncias
Tantas histórias
Incontável o tempo
Vasto, vazio, vão

Acaso é o que te chamam
Encontro da nau à deriva
Coração sem destino
Peito repleto de perdição

Maralto - teu lar é distância

Mai, 2010

sábado, abril 17, 2010

Efeméride



Gosto de pensar assim. Gosto deste sonho, desta fantasia. Talvez do teu lado eu encontrasse a compreensão que eu sempre busquei no outro. E, agora que sei o que é . Merda! Sei também que a vida é assim mesmo. Nada é pra ser o que deveria ser. A vida simplesmente é e a gente toda tem que aprender a lidar com isso, com a frustração, com essa grande decepção que é esperar demais e encontrar o que é preciso, mas compreender muito depois. Tarde? Merda! A vida toda eu te esperei. Mas eis que te encontro do outro lado de um Rio, num outro abismo, repleto de pássaros, cujos nomes não sei pronunciar. Neste tempo, diriam os astrólogos, havia uma conjunção astral - minha lua enquadrada no teu sol. E como tu sorrias bonito depois que aquele astro desgovernado levou a tua presença. Mas quem poderia prever que longe tu serias assim tão presente? Só eu mesmo pensaria em sincronicidades. Só eu mesmo veria estes padrões em eventos tão aleatórios. Só eu mesmo construiria delicadamente esta teia de afetos. Tudo isto eu faria igual. Panta rei, tudo flui - não sei para onde. Panta rei, tudo flui - não é preciso saber. Nós - sim, e contra todas as expectativas filosóficas - nos banhamos na mesma água daqlele Rio. Nós mesmos reconhecemos o sabor daquele sal. Nós temos histórias tão opostas que irmãs. Assim, firmamos um acordo naquele tempo, quando caberia para muitos apenas um breve olhar. E era esse tipo de eternidade que procurávamos e não admitíamos. Na loucura que domina a nossa cabeça sã, insana é a rotina dos dias dessa gente humana. Nós sabemos o que é sonhar.
abril, 2010

quarta-feira, abril 14, 2010

Poética


Não
Há poesia
Em toda poesia suposta

Certamente que não
É apenas imitação

Compreender a voz do vento
Se o vento falasse
Ouvir o sussurar do silêncio
Se o silêncio (aos poucos) se calasse

Isto sim
Traria alento pro meu coração.


abril, 2010
foto: Geraldo Soares

terça-feira, abril 06, 2010

Clavícula


Meu coração navegante. Meu coração marítimo sem mar. Meu coração viajante espera encerrado na distância. Chave e segredo. Chave que abre o centro deste mundo. Mas o tempo é uma dimensão fugidia. Raptor do momento preciso enquanto se espera. O tempo é um deus traidor, que corrói a confiança dos homens na eternidade. E o que há de eterno naquele olhar cheio de ternura? O que permanece além das cinzas do que ardeu um dia? Hálito de vento. Amor em ondas. Aqueles corpos exaustos a beira do que já foi um mar. Ah... Apoia a mão no meu ombro, Amor, que eu te amparo. Não segue esse futuro. O amanhã não deixa pegadas na areia e se deixasse cada maré seria um esquecimento. Tudo é o porvir. Tudo é desconhecer o que a tempestade trouxe nas vagas. Mas eu ainda lembro da maresia, no cheiro dos teus cabelos. Maresia ao redor da minha cabeça girando - minha tontura. Maresia, teu nome é lucidez! Sonhei então que eu era um peixe, mas não queria nadar. Sonhei que eu era prisioneiro do teu litoral e nem sabia o que era amar. Perdido todo sal, o oceano estreito é como um Rio. Margem e limite. Margem paralela do horizonte. Margem sem fim. Fui peixe sim - eu não tinha pés.
abril, 2010

domingo, março 28, 2010

Diagnóstico



Boca amarga
Sem doçura na alma

Caso perdido
Difícil dizer se está vivo
Nem sofreu de amor

março, 2010

Nau



Que nostalgia é essa
A saudade que eu sinto?
Nem ouso pensar no teu nome
E já é tarde

Estes horizontes sem navios
O que será?
Estes restos de conchas
Estes seixos rolados
Lembram ao homem deserto
"Um dia tu já fostes mar!"

Como é distante o partir...

março, 2010

sexta-feira, março 26, 2010

O Ombro do Hector


Eu suporto bem esta vida sem cotidiano, sem ter um amor rotineiro. Afinal de contas, sempre foi muito difícil para mim criar uma companhia simplesmente pra evitar este medo (enorme) que eu tenho de ficar só, ficar com alguém por ficar, ficar só com ninguém - até eu mesmo perdido de mim. Então, gradativamente, nesta vida que eu vivi até agora, aprendi a conviver comigo mesmo. Ah! É verdade... Cometo esta obscenidade de ser livre. Completo assim, sem nada e encontrando tudo que é necessário quando eu preciso. Às vezes esqueci disso. Às vezes até choro quando minh'alma momentaneamente enfraquece. Mas este sou eu. Não sou o outro. Talvez poucos me compreedam. Talvez, ninguém. De vez em quando duvido que eu mesmo compreenda. Aliás, a compreensão é como aquele meu olhar pro o ombro do Hector. Nem sei o quanto é possível deixar de amar o outro amparado pela distância, quando a própria distância, em um dado momento (trágico) é uma dádiva. Decidi não perguntar. Amaria facilmente, se eu não desconfiasse de um acordo tácito para o desencontro - quase obrigatório - que se segue a cada encontro emaranhado nesse desígnio de teias. Que falta fazem as Moiras, hábeis em cortar o fio da rede e desamparar uma vida de escolhas convenientes. Não perguntei. Pois onde o porquê é só distância, inútil também é qualquer resposta. Deixemos tudo como está embalsamado pelas lembranças e histórias que aprenderemos a contar, pois muito bem sabemos o que nos agrada. Aliás, nem cheguei a descansar a minha cabeça exausta de pensamentos naquele ombro distante. Prefiro fazer poesia daquilo que nem sequer perdi. O que resta é a sina dos poetas: transformar dor em arte (modéstia a parte).

março, 2010

sábado, março 20, 2010

Love in the mist


Quem dera eu fosse dono deste tempo...
Passado, vapor, lembrança
Quero agora aquele jardim da infância
Onde amar era apenas mistério
Leve, manhã e bruma.

março, 2010

sexta-feira, março 12, 2010

Cartas de uma França perdida...

Foto: Geraldo Soares
Amo teu sorriso distante
Simplesmente porque sorris

Sim, guardarei na minha memória
As cartas que nunca escreverei
Há também nos meus braços
Muitos abraços que jamais darei

Perdi o amor
Mas me restou Paris.

Junho, 2009

sábado, março 06, 2010

Com Paixão


Não tenho todos os sonhos do mundo
Nunca os tive
Nunca os terei

Mas não ignoro o sonhar
Estendo minha mão pra todos eles
E os compreendo neste tempo

Assim vivo
Como se eu fosse possível.

março, 2010

sexta-feira, fevereiro 26, 2010

Imitação de Vida


Ando imitando a vida
Vivendo feito poeta
Sem escrever alguma poesia

Apaixonado pelo que seria
(Pelo ontem que não veio hoje)
Amei o sempre

Olhando pra tudo pacífico
Apesar desse meu lado atlântico.

fevereiro, 2010

quinta-feira, fevereiro 04, 2010

Terminal


Sou um tolo incurável
pela vida toda

Tenho
coração mole
cabeça dura
e dor nas costas

Escrevo
poemas apaixonados
cartas longuíssimas
e postais

Amo
seres imaginários
amores concretos
e artistas

Acredito
no que não vejo - quase ilusão
o azul do céu
há verdade nas formas das nuvens?

Não procuro
(mesmo se houvesse)
a cura

fevereiro, 2010

terça-feira, janeiro 12, 2010

Vazio e Vasto


Não há intenção neste verso
Há em todo lugar ao redor

Coração vasto
Sensação de vazio

Verso intenso
Mesmo quando é nada.

Janeiro, 2010