sexta-feira, julho 31, 2009

Sirénios


Meio terra meio água
Canta pras ondas
Como quem flerta o mar

O quê tu esperas
Se o oceano não ouve
E nem vê?

julho, 2009

quarta-feira, julho 29, 2009

Epitáfio do Amor



Definitivamente o Amor está morto. Não acreditei. Conferi nos anúcios fúnebres dos jornais da capital. E era verdade. Ele morreu, velho e desgatado. Dizem que foi de tédio pelas rimas vulgares. Dizem que o amor se incomodava com a flor e com a dor. Triste do Amor que precisa explicar o porquê da própria morte. Nem na morte consegue sossego. Dizem também que ele morreu pelo desuso, feito o latim. Ninguém entendia e nunca há(via) muito tempo para o Amor. Frases muito longas, cheias de declinações, metáforas; nada prático o Amor. Ambos são bons candidatos para a morte. O Amor, a exemplo do latim, esquecido e sem uso, decidiu morrer. E morreu todos os dias desde que o primeiro ser o encontrou. Naquele tempo o Amor, renitente que era, insistia em nascer e o Ser e o Verbo se confundiam numa língua viva, cheia de linguagem, sinais, mensagens, emoções, afetos, flores, dores... Mas o Amor não resistiu. E Morreu. Por que o Amor, entristecido, quando se descobre sem uso, continua morrendo. Ele morre dentro de si. Ele morre de dentro para fora. Ele morre todos os dias. O Amor morre simplesmente, sem caixão folheado a ouro. Ele morre sem cerimônia. Astro pop morre melhor do que o Amor. A vantagem é que o Amor morre em gerûndio, mesmo nos anos bissextos. Sim, espalhem a notícia: O Amor é um deus mortal! E não se espantem, pois o mundo continuará do mesmo jeito sem o Amor. A vida o dispensa todos os dias e continua viva. E ele, o Amor, inútil, resolveu apenas não mais resistir - o que é bem simples. Antes morrer do que ser morto todos os dias. E o que fazer todos os dias com o Amor? O Amor não é algo prático. Sempre dá problemas. Melhor morto e embalsamado. Talvez o Amor exposto, destripado, virado no avesso do amor sirva para alguma coisa. E, aliás, pra que serve o Amor - vivo ou morto? Vende produto? Cria famílias? A indústria se desenvolve, os mercados se expandem, as famílias prosperam e a humanidade enriquece há séculos e foi cientificamente comprovado que tudo isso acontece sem o Amor. O Amor é um exagero inútil. Não, agora, que está morto. E tudo que morre vira lembrança por algum tempo. O Amor-lembrança provavelmente servirá para algo. Será que esse é o valor do amor? Faltar? Morrer todo dia para ser procurado, pensado, destrinchado, pesquisado. Será que o Amor vale que nem o Mar Morto que é morto e nunca deixou de ser Mar. Se a lembrança de qualquer coisa a deixa mais viva, por que não seria assim também com o Amor? O Amor morto é mais vivo do que foi em vida. Então, essa é a estratégia do Amor, deus mortal. E por isso ele morre todos dias. Ninguém se dá conta do Amor moribundo que ainda resiste. Só o Amor definitivamente morto será lembrado. E morre o Amor pois não se morre com ele. Este será o seu epitáfio.


julho, 2009

sábado, julho 25, 2009

Mudez


Em qualquer lugar
Há mais som que silêncio

Mas se eu não te ouço
É difícil acreditar
Na tua voz mais profunda.

julho, 2009


quinta-feira, julho 23, 2009

Axioma de Eros


Não existem paixões mal resolvidas
Entretanto elas representam
De maneira aproximadamente suportável
As paixões que eu não compreendi.

Julho, 2009

Tear


O amor tece
Seus próprios mitos
E os fios da teia
Do amor/tecido
[temor d'amor(te)]

julho, 2009

sábado, julho 18, 2009

Licor de Abacaxi



"Je sais une tristesse à l'odeur d'ananas,
je suis moins triste,
je suis plus doucement triste."
(Gaston Bachelard)

O amor (se é amor)
Morre como um abacaxi
Resiste morrer
Apodrece lentamente
De fora para dentro
E retem a doçura.

Julho, 2009