quinta-feira, junho 18, 2009

Torre de Babel no Coração


Estou aqui tão distante de casa e o que me faz mais falta e o som familiar da minha língua. E eu bem sei qual é o meu engano. Da minha janela da Torre eu acredito compreender o Mundo. Eu não confio nos ouvidos do Mundo.
Sim, muitos dirão: Compreender é um exercício mental. Mas, além do intelecto, o que inspira a compreensão é uma série de pequenas virtudes já publicadas(1), dentre as quais eu tomo a liberdade de por o afeto. Sentir afeto... Nesse mundo de desafetos espontâneos e de prevenções autopreservativas, o afeto espontâneo, livre e incondicional é mais que simplesmente um sentimento: é uma virtude. Os seres afetuosos são, por extensão, virtuosos. E como eu os invejo.
Outro dia perto de uma estação do metrô assisti uma jovem violinista. Era um desses músicos de rua que só se vê por aqui. Tocava um trecho das quatro estações do Vivaldi. O inverno fechando essa primavera chuvosa, setentrional e agora, curiosamente, minha. Observei os seus dedos pressionando as cordas com suavidade e firmeza. Observei o arco portando aquela que era sua melhor voz. Uma voz que não era só da jovem de olhos azul celeste e tez lunar. Era a voz do violino que falava ao mundo do seu criador. Era também a voz que atravessa os séculos e para nos dizer que o tempo é pródigo. E essa vida prodigiosa não pede nada mais do que isto para nós, os seus casulos: Sejam prodigiosos.
E o prodígio maior da vida começa quando nos reconhecemos iguais. Abaixei-me e retribui como eu podia naquele momento não apenas à música. Agradeci ao auxílio que recebi em descer mais um degrau da Torre que tolamente me apontava o céu. Eu estava mais perto do chão.
Dias depois voltei à mesma estação esperando ter mais uma vez o privilégio de ouvir a aquela violonista. Ela não estava lá. Perambulei um pouco pelo labirinto de corredores da estação de metrô. Desisti. Continuei então o meu caminho, mas guardava ainda a esperança de algum dia reencontrá-la.
Enquanto esperava meu trem, rodeado por aquele mar de ruídos eu podia ouvir claramente o som daquele mesmo violino. Aos poucos reconheci Vivaldi. Mas não havia a violonista. Apenas o reencontro, a lição aprendida, a memória.
Mas essa descoberta ao mesmo tempo que satisfaz, apavora. Essa é a parte mais difícil do processo, da compreensão. Assim que nos unimos pelo afeto, deixamos de ser necessários.
Nota:
(1) Comte-Sponville, A. (1999) Pequeno tratado das grandes virtudes. São Paulo: Martins Fontes, 392p.
Junho, 2009
(Paris)

Um comentário:

Ser em construção disse...

Passei para agradecer sua visita
espero que tenha gostado.
super beijo