segunda-feira, junho 29, 2009

sábado, junho 27, 2009

quinta-feira, junho 18, 2009

Torre de Babel no Coração


Estou aqui tão distante de casa e o que me faz mais falta e o som familiar da minha língua. E eu bem sei qual é o meu engano. Da minha janela da Torre eu acredito compreender o Mundo. Eu não confio nos ouvidos do Mundo.
Sim, muitos dirão: Compreender é um exercício mental. Mas, além do intelecto, o que inspira a compreensão é uma série de pequenas virtudes já publicadas(1), dentre as quais eu tomo a liberdade de por o afeto. Sentir afeto... Nesse mundo de desafetos espontâneos e de prevenções autopreservativas, o afeto espontâneo, livre e incondicional é mais que simplesmente um sentimento: é uma virtude. Os seres afetuosos são, por extensão, virtuosos. E como eu os invejo.
Outro dia perto de uma estação do metrô assisti uma jovem violinista. Era um desses músicos de rua que só se vê por aqui. Tocava um trecho das quatro estações do Vivaldi. O inverno fechando essa primavera chuvosa, setentrional e agora, curiosamente, minha. Observei os seus dedos pressionando as cordas com suavidade e firmeza. Observei o arco portando aquela que era sua melhor voz. Uma voz que não era só da jovem de olhos azul celeste e tez lunar. Era a voz do violino que falava ao mundo do seu criador. Era também a voz que atravessa os séculos e para nos dizer que o tempo é pródigo. E essa vida prodigiosa não pede nada mais do que isto para nós, os seus casulos: Sejam prodigiosos.
E o prodígio maior da vida começa quando nos reconhecemos iguais. Abaixei-me e retribui como eu podia naquele momento não apenas à música. Agradeci ao auxílio que recebi em descer mais um degrau da Torre que tolamente me apontava o céu. Eu estava mais perto do chão.
Dias depois voltei à mesma estação esperando ter mais uma vez o privilégio de ouvir a aquela violonista. Ela não estava lá. Perambulei um pouco pelo labirinto de corredores da estação de metrô. Desisti. Continuei então o meu caminho, mas guardava ainda a esperança de algum dia reencontrá-la.
Enquanto esperava meu trem, rodeado por aquele mar de ruídos eu podia ouvir claramente o som daquele mesmo violino. Aos poucos reconheci Vivaldi. Mas não havia a violonista. Apenas o reencontro, a lição aprendida, a memória.
Mas essa descoberta ao mesmo tempo que satisfaz, apavora. Essa é a parte mais difícil do processo, da compreensão. Assim que nos unimos pelo afeto, deixamos de ser necessários.
Nota:
(1) Comte-Sponville, A. (1999) Pequeno tratado das grandes virtudes. São Paulo: Martins Fontes, 392p.
Junho, 2009
(Paris)

domingo, junho 14, 2009

terça-feira, junho 09, 2009

Gif(ts)-sur-Yvette

Hoje, 07 de junho de 2009, às 20h (ou 15h horário de Brasília), eu estou aqui no meu quarto do Chateau du CNRS, em Gif-sur-Yvette1, na França, tomado por uma série de sentimentos diversos que, por diversas maneiras, são complementares.

Não poderia deixar de sentir uma pontada forte de tristeza pelos 228 passageiros e tripulantes que foram vítimas do recente acidente com o Vôo da Air France. Não importa as cores, as nacionalidades, os sexos, as idades, os credos, os partidos políticos, as profissões... É uma tragédia, enfim. Hoje na Igreja de Saint Remy em Gif eu (e meu hábito herdado do Bruno de visitar pelo menos uma igreja dos locais que visito) acendi uma vela para rezar do jeito que eu sei, um tanto agnóstico, mas essencialmente sincero. Pensei naquelas pessoas todas. Chorei um pouco pensando na dor das famílias. E, sentado nos bancos gastos daquela igreja, simples para os padrões europeus, eu quis poder confortar quem sente esta dor da perda repentina de alguém que se ama. Eu já perdi. Sei o que é.

A dor diminui com tempo, mas a falta sempre esta lá no fundo do coração. É uma sensação de vazio parecido com a falta Drummondiana que não é falta e sim uma ausência gravada na alma.2 Nos dá uma dimensão e um olhar diferentes sobre a vida, sobre a brevidade da vida, sobre viver. Essa dor amadurece e, se vivida intensamente e com verdade, se transforma numa pérola. É exatamente como está num dos livros mais recentes do Rubem Alves.3 Hoje esse sentimento se materializou inusitadamente para mim na letra de “Pedaço de Mim” do Chico Buarque, em especial nessa estrofe:

“Oh, pedaço de mim

Oh, metade amputada de mim

Leva o que há de ti

Que a saudade dói latejada

É assim como uma fisgada

No membro que já perdi...”

Coincidências da vida... Como eu poderia imaginar que ao sair da Igreja de Saint Remy, iria sentar naquele café numa das ruazinhas estreitas de Gif e ouviria tocar justamente esta música. É claro que a emoção toda que eu havia tentado controlar para poder sair da Igreja irrompeu de mim como um estouro de boiada. Chorei de novo, ali, anônimo, sentado num café numa cidade de um país distante, ouvindo Chico Buarque falar do que eu sentia.

De repente, alguém, que imagino ser o dono do lugar, me perguntou em um português bem pior que o meu inglês, mas perfeitamente compreensível, se eu era brasileiro e se tinha algum conhecido ou parente no vôo da Air France. Tentei me recompor, para minimizar ao máximo possível o vexame e disse que era brasileiro sim, mas não tinha ninguém chegado no vôo. Expliquei que de qualquer maneira o acontecido me provocava um forte sentimento de compaixão. Enfim... Não sei o que ele entendeu. Em qualquer situação é muito difícil explicar o inexplicável.

Conversamos por alguns minutos, tomei o meu café que acabou sendo uma prova da gentileza que se pode encontrar pelo mundo. Em seguida voltei para “casa” lentamente naquela tarde chuvosa de primavera. Fui pelo caminho contemplando a minha pérola.

Coincidências da vida... Eu levei tanto tempo para vencer o medo da barreira da língua e sair do Brasil numa viagem de trabalho e isso foi acontecer justamente nessa época. Há duas semanas, no dia 23 de maio, quando cheguei aqui para um dos acontecimentos mais importantes da minha vida, meu irmão Ronaldo, que morreu aos 39 anos, faria 49. Hoje também rezei por ele, mas não lamentei os 10 anos sem a sua companhia. Agradeci as quase quatro décadas que pude desfrutar não apenas do irmão, mas também do amigo querido, compreensivo e generoso a quem eu devo também o fato de estar aqui. Herdei dele também o afeto da Bruna Carolina, sua filha, hoje com 27 anos.

Há alguns anos atrás ela me apelidou carinhosamente de segundo pai. Nós sabemos o motivo disso, não é Bruna? Sabemos também que seu coroa ficaria feliz se puder saber do carinho, respeito e gratidão que guardamos até hoje por ele. Então esse é um dos presentes que tenho recebido da vida. Daí o trocadilho com o nome da cidade que serve de título para esse texto (gift em inglês pode ser traduzido como dom ou presente. A Ana Petrilli que me corrija se eu estiver errado).

Então, é desse dom/presente que eu gostaria de falar para as famílias que perderam seus entes queridos na tragédia recente. O que ficará deles é sempre o que mais importa. E isso não depende da presença. O nosso amor por eles os faz presentes.

Notas:

(1) http://www.mairie-gif.fr/rubrique.php3?id_rubrique=125

(2) Por muito tempo achei que a ausência é falta.

E lastimava, ignorante, a falta.

Hoje não a lastimo.

Não há falta na ausência.

A ausência é um estar em mim.

E sinto-a, branca, tão pegada, aconchegada nos meus braços,

Que rio e danço e invento exclamações alegres,

Porque a ausência, essa ausência assimilada,

Ninguém a rouba mais de mim.

(Caros Drummond de Andrade)

(3) Alves, Rubem (2008) Ostra Feliz Não Faz Pérola. 1ª Edição, Editora Planeta, São Paulo, 288p.