domingo, março 29, 2009

Ulysses


Não me basta saber
Que todas as noites
Desfaz tuas tramas (por mim)
Num ritual de espera

Ninguém me oferta o tempo
Pois ele já me pertence.

Março, 2009

Argonauta


"Navegar é preciso
Viver não é preciso."


E eu estou navegando
Pois amar 
Para mim nunca foi espera

Velas abertas ao vento
Minha tranquilidade
Nada tem de calmaria.

Março, 2009

Vértice do tempo


Às vezes
Reúno minhas forças
Tentando perceber o mundo
E sentir tudo
Como parte de mim mesmo

Mas a maior parte do tempo
Sou o que chamam de “humano”
Um intervalo entre as sensações
E a inexorabilidade do momento.

Julho, 1991

quinta-feira, março 26, 2009

Entrega


          "Cada um está só sobre o coração da terra
            Trespassado por um raio de sol:
            E de repente é noite."
            (Salvatore Quasimodo)


É noite
Não há luz no caminho
Na escuridão não há caminho
Há, então, o risco de se perder
E o que detém sempre são dúvidas.

E dúvidas são o oposto da ternura
A ternura é certa de si mesma
Não se importa para onde
Dispensa mapas e as geografias dos mistérios

Não há amor, generosidade maior
Que não haver dúvidas
O coração que quer se entrega

E feliz do coração que não tem posses
Tudo é entrega.

Março 2009

terça-feira, março 24, 2009

Psyché

Ritmo
Movimento vital da mudança compassos
Sonho
Visão de um céu fragmentado
Estradas
Borboletas não voam estradas

Passam pensamentos
Pelos rostos transfigurados
Porque então
A essência de tudo não mudaria?

O nada é cheio de reentrâncias
Como o desenho de uma asa.
(Desejo de voar)

Setembro, 1986

Livro


Abro meu coração
Como quem abre o livro “novo”
e re-lê com espanto.

Palavras conhecidas
Desdobram-se em sentidos que nunca senti
E a novidade se mostra como um primeiro amanhecer
Para olhos récem abertos.

Temer o desconhecido torna-se um prazer
Aos poucos compreendido, desfazendo toda dúvida
E toda dúvida agora é tanto luz quanto sombra
É menos dor que vontade...

Quero mais, muito mais
Do que o Mundo me reserva...
Quero conhecer minh’alma.

Março, 2009

sexta-feira, março 20, 2009

Credo


Minha solidão 
Repleta de caracóis
E lenta.
Minha esperança 
Repleta de asas
Sabe apenas voar.

Seus ouvidos não vêem
O que tu andas fazendo
Aos teus sentidos.

Espero simplesmente
Que tu ainda saibas quem eu sou
Naquilo que tu és.

Março, 2009

segunda-feira, março 16, 2009

Fragilidade



Para Andréa Paula Carestiato Costa

“Não me toque tanto assim
O mundo é pequeno e redondo
Eu posso girar e cair."
(Jairo Salvador)



A ninfa de mármore
Persegue (incansável) o seu destino,
Que, escondido pelo espectro das árvores,
Corre contente como se fosse um menino.

Atravessa um verão e outra primavera,
Descobrindo em cada estação um sonho.
Enquanto dorme, abate uma quimera,
Que lhe exibe o rosto medonho.

Quando acorda, a criatura sobrevive,
Muito além do sonho, envolvida pelo arco;
Mas é apenas o outono atravessando o marco.

Assim, ela descobre que o porvir é livre,
girando e dando voltas no seu suceder ágil
E sustenta o fio de tudo, tão forte que é frágil.

Novembro, 1989

Cecily


Para Cecily (é claro)
I
Cecily, andemos de mãos dadas
Ao longo deste caminho.
Não me deixes só,
Não te deixes só - estenda a mão
Que a minha a tua espera,
Solta no ar acenando um adeus;
Mesmo assim, espera...

II
Ao largo de tudo que supus ter vivido
Do teu lado, Cecily, caminha o meu sonho.
Poderia ter sido a sombra do melhor amigo
(Música antiga, difícil lembrar),
Fui apenas uma noite de invisíveis sombras,
Onde os cães adormecem esquecidos.

III
Ah! Cecily ...
Adormeças ao meu lado;
Não te deixes tão só,
Eu assim tão só.
Simplesmente, adormeças do meu lado
Que eu velarei teu sono,
A distância guardarei teu descanso,
Adormecido, no que suposto apenas,
Haveria sentido.

IV
Olha, Cecily,
Como passou o tempo - tão depressa...
Nossos rostos, assim tão mudados,
ainda são os mesmos.
Veja no jardim as árvores que plantamos juntos,
Já estão maiores que os nossos enganos;
Descansemos então à sua sombra,
Desfrutando em nós o que é humano.

V
Portanto, Cecily, sorrias.
Sorrias, encenando teu sono.
Dormitas, levemente, dormitas;
Que eu não te amei,
Eu sempre menti - dormitas então,
Que eu violarei teu sono
E com os meus, invadirei os teus sonhos.

Agosto, 1989

Agradecimento



Meus pensamentos
São a porta de um cofre
Irremediavelmente marcada pelos tempos...

De maneira tão precária protejo
Não o ouro
mas o brilho
Não as mãos
mas o toque

E a vocês
Que arrombaram o cofre
Privando-me das coisas que nunca possuí
Como sou
grato.

Dezembro, 1991

domingo, março 15, 2009

Cidades


Os olhos encontram outros olhos
(tudo é cor)
A luz se decompõe,
A boca encontra outra boca

(tudo é língua)
Mas a linguagem não se compõe.
(escuridão)

Amor.
Enquanto palavra, carece de significado.

Quando repleto de sentimentos, perde o sentido.

Apenas o “inverso” de uma cidade,

E o “inverso” de uma cidade não é campo.

Os homens constroem escadas rolantes,

Para subir também ao contrário.
Quem me dera fosse possível ajoelhar

Sem dobrar os joelhos.

Março, 1987

terça-feira, março 10, 2009

Soneto Circular


Existe um mundo aparente,
Onde as sombras são maiores que as almas
Refletidas nos lagos de superfície calma,
Abandonando corpos afogados que não sentem.

Nesse mundo que nunca me pertenceu
Há estradas encobertas por neblinas,
Cercadas por muralhas da China
Que tornam invisível o que se perdeu.

Tudo que me resta é um cantar quase esquecido,
De estrofe única e um verso extendido
Na vastidão que cabe em um segundo.

E a leste daqui está o outro mundo,
Tão leste que o oeste fica mais perto...
Então aqui sempre foi o lugar certo.


Abril, 1986

Todas as cores do camaleão


Não me queira o mesmo
A todo momento

Não queira de mim

Sempre o mesmo amor...

Eu
 
Sou mutável
E o meu sentir

Tem pele de camaleão.


Novembro, 1990

segunda-feira, março 09, 2009

Érato


I

Não tenho emoções

Tampouco sentimentos

O que tenho são apenas sensações

Nada tão profundas como pensamentos.


Qualquer coisa que por ventura eu sinta

Nunca me pertence

São desse outro que em mim habita
E
que por mim sente.

II

Na profundidade desta solidão
Fico cada vez menos profundo
Conheço apenas a superfície do mundo
E o pouco que conheço parece imensidão.

Então, meu espírito abandona tudo que faço
Vivo mentiras que se tornam lembranças
Na tentativa de sobreviver às esperanças
De uma vida que segue, à medida que eu passo.

Março, 2009

Transparências do gelo


Amei

De repente tão passado
Este presente longínquo
Meu momento vivido brevemente
Sentimento débil

Entre os destroços do sonho...

E agora

Como o gelo que derrete

-Sou frio-

Sem a certeza de ter sido

Tão sólido.


Março, 2009

sexta-feira, março 06, 2009

Cio do mar



Ah! Por um momento
Eu pude ver o mar em pleno cio

Mas o meu peito, convés vazio

Acolheu
distâncias e sentimentos.

Por pouco há mar - quase amei

Sem querer tocar, acabei ferindo

Mas o litoral desconhece suas ondas - eu sei
E o outro lado só se descobre partindo.

Ser distante é ignorar medidas

Quer na distância do beijo
Ou separado por milhas
Meu coração se lança em viagens desconhecidas
Porque temer torna-o menor que a ilha.


No entanto, quero ser um rio

Transformando minha dor antiga na esperança

De que eu um dia, nestas minhas andanças

Eu desagüe no mar e sinta o teu cio.

Março, 2009

A natureza morta do amor



O amor se alimenta de sol

Mata sua sede com chuva

Cresce como planta - árvore frondosa
E mesmo não havendo frutos
(Que permanecem no imo dos ramos)
As folhas guardam a esperança
Revelada tão somente pela cor

Espera por que espera o amor espera

Olhando para cima - para o céu tortuoso

Vê um azul absurdo

E também vê nuvens (incansáveis) a sugerir imagens

Então o tempo em seu suceder implacável

Passa como se fosse vento

Leva as folhas - agora amarelecidas

Leva as nuvens - imagens desvanecidas

Leva tudo

Até o nada mais leve

Nada mais...

E o mais belo jardim
Nasce sobre folhas mortas.

Dezembro, 1988

Lirismo



Sinto uma leve dormência em minh'alma
Como aquele rio morno

Que vem dar (inevitavelmente) no mar...


E ao longo deste litoral me defini:

Sou alguém que prefere (antes)

Ser comparado à natureza
Do que ser natural.

Junho, 1991

quinta-feira, março 05, 2009

Repouso em movimento



Cortei o supercílio
Na lâmina afiada do incontestável.

O homem não é eterno
E no seu caminho está só.
Mas nem por isso as alegrias e as tristezas
(Que sempre foram o seu prenúncio)
Deixaram de estar no seu lugar.

Morre a carne,
Retorna à terra o que lhe pertence
E o que não é pó ou cinzas germina toda semente...

No domo de todas as coisas está o infinito
(A maior distância),
Onde apenas o repouso é movimento.

Julho, 1991

Luto



Nada mudou.

Os dias, porém,não são imutáveis.

O tempo ignora a existência humana,
Segue implacável apesar de todos esforços

Para mudar o seu curso.

O tempo (ao contrário da vida)
É uma necessidade universal...
Por isso viver é tão raro

E morrer é tão preciso,
tão definitivo.

Agora,

Você é uma imagem diáfana,
Você é tempo.

Você é imutável.

Eu sou apenas
um herdeiro da sua memória
E não sabia como era difícil

A morte do amigo,

Daquele de quem eu sabia
o riso e a tristeza
E que me conhecia tão bem.

O pedaço de mim

Devorado pela sua ausência

Procura também ser tempo

Ao manter unidos os fragmentos do sonho
Ameaçado pela sombra implacável dos acontecimentos.

Sou testemuha da imaterialidade do teu corpo
Esse corpo (inconsciente) que apodrece,
Enquanto você sorri na minha lembrança.

E esse sorriso que dói tão fundo,

É o mesmo sorriso que me conforta.

Março, 2009

Cronologia



Visão de um azul tão subtamente profundo
Luzes substituídas por outras luzes
Os postes tomando o aspecto de cruzes
Apontam pro Continente como se fosse outro mundo

Contatos com terras de uma outra terra
Soando como o eco de alguma infância
Mas a realidade prende na própria constância
Das idades que compõe uma era

Sujeitos à essa estranha cronologia
Que arruma um dia ao lado de outro dia
Como livros numa estante


Confundem-se os relógios que compassam a vida
Pois é inutil qualquer medida

Quando tudo se resume num instante.

Janeiro, 1986

Porto Possível



Não sei amar
Muito menos sei o que é o amor
E o meu coração é apenas um barqueiro louco
Que também abandonou a profissão do mar
Vivendo hoje dos delírios soterrados pelas ondas

Com uma vaga no peito deixada pelas lembranças

Dos dias em que viveu entre os temporais.


Amar
Seja talvez como existir um Oceano
De quem se ouviu dizer suas ilhas
Mas nem que eu viva toda uma vida
Conhecerei tantos litorais.

Suposto o meu amor
Posto que é desconhecido
Ele viaja para o Sul
Enquanto eu, num Porto à Sudeste
Sonho com outro à Leste do Leste
Que seja possível
E não seja distante.

Junho, 1989

Dispersão



Cedi à força do desejo
Entreguei-me ao meu destino ateu
Sentindo o acre-doce do beijo
Daqueles lábios que não eram os teus.

Amo e às vezes amar é só instinto
Outras vezes é distância, é tormento
Então só penso no amor que sinto
E esse pensar torna-se pressentimento.

Amei tanto e, que grande ironia
Passei do ponto de te amar
Quando olhei meus braços, eles se moviam
Apesar do peso dos abraços que não pude dar.

Dezembro, 1988

segunda-feira, março 02, 2009

Tempo partido tempestade



Não penso
Reúno os pedaços
Da ânfora do tempo
Que se partiu.

Não sinto
Devoro momentos
Enquanto aguardo
O ponto evento
Um vento qualquer
É tempestade.

fevereiro, 2009

Estação das águas



Navego em mim e as naves são incertas,
Estanco o rio na confluência do não.
Meu corpo tem margens discretas
E corredeiras confusas no coração.

Mas se existe este rio
(Cheio de curvas, caminhando sem parar),
Foi porque a chuva superou o estio,
Na esperança de diluir o mar.

outubro, 1989

domingo, março 01, 2009

O último drama do Epicuro


TEMPO
De noite
Estendo-me na neutralidade
Como se fosse este o meu único leito
Meu único coforto e descanso
Não durmo
Não há sono
Não durmo.

Vagueio por noites claras
De uma dor quase luminada
Mas é difícil enxergar uma dor
Embora seja fácil sentí-la
Pois (nesta vida) sentir
É simplesmente um hábito.

E fechada a porta do quarto
Desimporta-se qualquer esperança
Que espera ansiosamente
O amanhecer de outro dia
Mas eu nem mesmo espero
Consciente de que os dias sempre amanhecem.

E viro e reviro-me
Por todo o mundo contido neste catre
Despojado dos meus sonhos
Vejo o vulto de tudo encoberto
Pelo avesso dos lençóis
E desconheço a vida além dessas tramas.

Quando me acredito desperto
Decido cair
E é então que me sinto leve
Dissolvido pelo cansaço
Adomecido pelo esquecimento.

fevereiro, 2009