quinta-feira, fevereiro 05, 2009

Ismália



Como ela foi citada na postagem anterior, "Desencantamento", achei bom explicar de onde veio Ismália. Ismália, vive no seu sonho eterno num dos mais belos poemas do Simbolismo. Relendo-o pela enésima vez lembrei-me do protagonista da marchinha de chamada "Estrela do Mar". Engraçado lembrar disso bem na época do carnaval... E eu nem sou tão carnavalesco assim.
Fiquei imaginando o que a Ismália tem em comum com o "grão de areia" da marchinha. Sonhadores são loucos que não desistem de sonhar. Eles que são a mola mestra do mundo. Realizar é apenas sobreviver. Sonhar é movimentar a vida, é viver.
Eu sei que não há exatamente uma novidade nisto. Eu, como tantos antes de mim e muitos depois, tenho sonhos. E chamar os meus sonhos de sonhos é uma licença poética. Quem sonha de verdade não se refere ao sonho como /sonho/. Um sonho para um sonhador é quase um projeto: é um convite.  É a tentativa de tirar a vida das linhas e posiciona-la nas entrelinhas, no que não está escrito. 
Por isso quando eu digo alguma coisa -  por exemplo, eu amo - não há apenas o que foi dito. Eu falo como quem escreve com a língua e nem tudo é somente o que foi dito: há o que veio antes; o que poderá ir além; o que não poderá ser; o que nunca vai deixar de ser. Há também o que é. Mas nunca há um muro ao redor.

Enxergar estas infinitas dimensões da vida é verdadeiramente "sonhar".

Aproveitei e transcrevi também a marchinha no final desta postagem. 

Ismália 
(Alphonsus Guimarães)
Quando Ismália enlouqueceu,
Pôs-se na torre a sonhar...
Viu uma lua no céu,
Viu outra lua no mar.

No sonho em que se perdeu,
Banhou-se toda em luar...
Queria subir ao céu,
Queria descer ao mar...

E, no desvario seu,
Na torre pôs-se a cantar...
Estava perto do céu,
Estava longe do mar...

E como um anjo pendeu
As asas para voar...
Queria a lua do céu,
Queria a lua do mar...

As asas que Deus lhe deu
Ruflaram de par em par...
Sua alma subiu ao céu,
Seu corpo desceu ao mar...


Estrela do Mar
(Marino Pinto e Paulo Soledade)
Um pequenino grão de areia
Era um eterno sonhador
Olhando o céu viu uma estrela
Imaginou coisas de amor
Passaram anos muitos anos
Ela no céu ele no mar
Dizem que nunca o pobrezinho
Pôde com ela se encontrar
Se houve ou se não houve
Alguma coisa entre eles dois
Ninguém pode até hoje afirmar
O certo é que depois
Muito depois
Apareceu a estrela do mar.

Um comentário:

graça disse...

G
Cá estou...é que o tempo anda curto...a labuta é grande...e você sabe: preciso comprar louça nova para casa!!
Fiquei pensando duas coisas depois de ler sua última postagem. Uma tem relação com o QUERER de Ismália.Talvez seja mesmo o seu QUERER e não o sonho,a mais significativa aprendizagem...o mar e a lua, são horizontes para nossa Ismália...o que move é DESEJO.E seu QUERER bem o demonstra...enquanto deseja,se movimenta, inventa-se a si própria,seu enredo,sua trama, seu destino.Assim como nós.
A outra tem relação com a lembrança de PROJETO...O outro dia ouvia Saramago dizer que jamais teve projeto...a vida aconteceu...Também ouvi Gullar dizer a mesma coisa...fiquei tocada, porque posso compreender.Nossas vidas são mesmo assim,as coisas acontecem...marchas e contra-marchas...continuidades e descontinuidades...não é que não tenhamos intencionalidades naquilo que fazemos...mas é algo para além...Por isso, não sei se é o PROJETO que faz toda a diferença...talvez o inesperado...algo novo que nasce a cada momento como possibilidade. Resultado de encontros e desencontros.