segunda-feira, fevereiro 09, 2009

Estelação



Outro dia me veio à cabeça uma aula de português, dos tempos do primário, quando houve um teste surpresa sobre o coletivo das coisas: lobo / matilha, abelha / colméia, pássaros / bando, ilhas / arquipélago, etc. Eu não conseguia lembrar de jeito nenhum do coletivo de estrelas. Sem pestanejar, usei o teorema de chutágoras. Respondi: estelação. Um colega de turma riu um bocado de mim quando leu a minha resposta. Ele não foi capaz de notar a criatividade do chute. Para ele o que importava era o gol.
Para a maioria, certamente para aquele colega de escola de quem nem lembro mais  o nome, provavelmente só importam, de verdade, as ações bem sucedidas: os chutes certeiros. Acertar vale uma boa memória. Errar é frequentemente um motivo de trauma. Mas será que não é certo também que algumas coisas dêem errado. O errado não poderia apontar para as falhas do certo? Não vou fazer aqui a pergunta mais óbvia.
Talvez soe estranho para muitos ler isso sobre mim, já que eu não tenho exatamente do que reclamar na vida. E não tenho mesmo. Mas tenho sim os meus fracassos. Num mundo basicamente competitivo onde o brilho individual é tão valorizado, eu sinto esta estranha necessidade de admitir os meus fracassos e incompetências. Há uma infinidade de coisas que eu gostaria de ser ou fazer e que não sou, não serei, não sou capaz de fazer e nunca conseguirei fazer. Muitas dessas coisas eu faria até muito bem, mas faltaria tempo suficiente para a dedicação necessária. Admito as minhas limitações.
Admitir as próprias limitações... Qual a dimensão de um homem que admite os seus limites, a sua incapacidade? Em algum momento senti a necessidade de decidir entre as opções que a vida me oferecia durante a minha busca e escolhi. Foi simplesmente isso. A minha vida sempre foi assim - decidida - apesar dos medos e dúvidas. Por isso, ouvi conselhos e observei as histórias daqueles que me rodeavam. Tive (e continuo tendo) bons conselheiros - pais, professores, livros, amigos... Mas as minhas escolhas foram feitas por mim. Responsabilizo-me por absolutamente tudo: fracassossucessos, erros, acertos...
Quando eu olho ao meu redor, vejo que os iguais se atraem e se encontram. E isso me lembra o assunto dessa postagem.
Ah, o assunto desta postagem... Ele aparentemente perde-se em meio às minhas divagações da mesma forma que um astronauta sem nave a deriva no espaço. De repente a visão das estrelas o faz pensar que sempre, mesmo no meio do vazio e da escuridão, há luz. Eu estava pensando nos meus amigos, cada um brilhante a sua maneira, como se fossem estrelas com sua escuridão ao redor e por dentro. 
Foi essa imagem cheia de poesia que me provocou, como diria Rubem Alves, a coceira para escrever sobre esse algo indecifrável que eu havia percebido. Sim, indecifrável, pois não consigo ainda - e talvez nunca consiga - compreender os mistérios que evolvem o mistério que me inspira e que, em última instância, é o motivo pelo qual sempre escrevi. Percebi que não é apenas o brilho dos meus amigos que me atrai. Sinto-me atraído por uma escuridão que todos eles projetam e que não carece daquela luz vulgar que se pode olhar sem o risco da cegueira. A capacidade de escolher depende muito da coragem de lançar-se nesta escuridão. Admiro-os sinceramente pelas suas escolhas, até mesmo aquelas aparentemente mal-sucedidas. Admiro-os pelas tentativas, buscas e desejos. Tenho um grande orgulhoso da constelação que eu pertenço.

2 comentários:

Geraldo Soares disse...

Comentário do Bruno por e-mail:

Muito bonito o que você escreveu. E e stelação deveria ser um vocábulo,sim... Poderia estar no mesmo dicionário em que estariam as ruas arvorizadas...

Beijo e bom dia pra você.

B

Ariane Rodrigues disse...

Olá Geraldo! Obrigado por visitar o blog! Seja bem-vindo!

Quanto a esta postagem. Penso que a forma como a escreveste, denotando um certo fluxo de consciência foi muito bem estruturada. E retomaste o assunto da introdução com uma conclusão que todos deveríamos ter acerca da nossa "estelação".

Contrariamente a ti, sempre tive muitas dúvidas. Ter certezas implicaria em descartes de algumas ideias e coisas e pessoas que talvez não quisesse renunciar de fato, reflito. Se errar for motivo de trauma, então jamais sairei da UTI, pois considero-me errante. Miro algo certo, mas não tenho muito boa pontaria. Acerto então algo duvidoso e incerto. Mas como isso tudo é relativo, como questionas aqui, tento pensar que se erro o alvo, tenho alguns acertos na trajetória... Bem, o que é certo, deveras, é que teu texto "dá muito pano pra manga". E é muito bom isso.

Abraço!