quarta-feira, fevereiro 04, 2009

Desencantamento


O desencantamento é que faz o sapo virar principe. Essa idéia me veio a cabeça ontem, enquanto eu conversava com a Denise. Tinhamos acabado de sair do cinema e a nossa fome nos guiou para um pequeno restaurante reservado que ela muito aprecia. Nossas conversas, sempre proveitosas me fazem pensar. E muito. Há nesses encontros todos os tipos de alimento. Saio sempre satisfeito.
O filme (Revolution Road - que ainda não concluí se era bom ou ruim) falava no fim de tudo do abandono do "sonho pessoal" pelo "coletivo", no caso "o sonho americano" pós segunda guerra. Percebi no filme um desencantamento disfarçado. Percebi personagens tristes se esforçando para parecerem felizes. 
No meio da conversa sobre o filme começamos a falar da vida alheia. De tanta gente feliz & frustrada que conhecemos. E eu comecei a pensar num muro, meio inclinado, com umas vigas postas precariamente para sustentá-lo. Pensei no esforço que se faz para sustentar o que está prestes à ruir.
Há nitidamente para mim uma tensão, não só física, entre as vigas e a queda. E toda a viga que sustenta um muro cujo o destino é cair retarda a mudança. É assim conosco. Com nossos ideias além do muro inclinado que não mais sustenta o seu próprio peso. Estamos presos, mas a imagem provável dos escombros nos abomina. Por isso preferimos adiar o fim inevitável meio a uma pequena revolução aqui e ali. 
Lembro que, no meio do filme, me veio à minha cabeça a recente eleição norte-americana. Até então eu não tinha pensado muito nela. Confesso que não tinha entendido muito bem a euforia de todos - desculpem-me. Mas o filme americano, com todos tão branquinhos, me fez questionar a profundidade de uma revolução que tem como ícone um presidente negro num pais de maioria (econômica) ariana com muros em queda apesar de todas as vigas que se tem colocado. Acho que foi mera associação livre. Porém, se o perigo do sapo é virar príncipe, o perigo do ícone é virar mártir. E o mártir é um ser tão especial que nos redime da falta de sentimento revolucionário.
Mas onde está a nossa revolução? Onde está a mudança? Onde está o nosso "Barak Obama Primeiro Presidente Negro dos Estados Unidos" (Salve, Salve!). Olho pro Obama e fico me perguntando se há nele algo mais branco além dos dentes impecáveis e o entorno das pupilas negras. Minha desconfiança só aumenta quando leio nos jornais o elogio ao seu terno impecável de príncipe e sua princesa sempre correta a beijá-lo com comedimento e roupas adequadas ao momento - nem mais nem menos. Começo a perceber toda mudança que se oferece a este mundinho com o mesmo olhar desconfiado do sapo que conscientemente foge do beijo da princesa. O que há por trás desse beijo? Quais são suas reais (sim reais) intenções? Mas fico feliz. Sou brasileiro e aqui, os "sapos" são presidentes faz algum tempo.
Imagino que os sapos sejam insones e notívagos como eu. Adoro noites vagas e se soubesse como, coxaria para uma lua indiferente em qualquer lago calmo e brilhante como um espelho. Mas, provavelmente, eu ficaria na dúvida para qual lua coaxar. A lá de cima, real, ou a sua imagem fuidamente bela refletida no lago. Ah, Ismália, como eu te entendo! E você nunca foi sapo. Como eu entendo também os sapos coachando renitentes no seu encantamento. Sapos, como todos, de olhos sempre abertos e bocas imensas e insilenciáveis. 
E, se não fosse bastante toda a conversa em torno do filme girar em círculos amplos de divagações que me inspiraram tantas analogias que eu nem lembro mais, eis que a lembrança do Homem Revoltado do Camus coachou na minha mente, enquanto a Denise derrubava um copo d'água na mesa. Dar voz a um sapo renitente fez de Camus um imcompreendido para os príncipes da sua época. Acredito que essa imcompreensão continue até hoje. Deram-lhe até título de príncipe, mas acho que ele se manteve fiel até morrer à sua memória das noites de lacustre boemia. 
É aconselhavel não ser um revoltado. Lembro bem desse conselho. Mas como acreditar nas revoluções feitas pelos príncipes?
Li outro dia que, devido as mudanças climáticas globais, os anfíbios estão sob forte perigo de extinção. Temo ao imaginar um mundo futuro dominado por príncipes e vazio de sapos.



Addendum
A Denise acaba de ler esta postagem e me enviou isso* por e-mail. Acho que vale a pena ouvir. Obrigado Dionísia!

2 comentários:

FRIZERO disse...

Assisti "Foi tudo um sonho" na terça-feira. Fiquei com a mesma dúvida que tu, se foi ou não um bom filme. Talvez seja a sensação de desconforto a que ele nos leva que nos dá essa impressão dúbia.

Há muito o que pensar ali. Para mim, a mensagem maior é um questionamento sobre os nossos dia atuais e essa obrigação de sucesso a qualquer custo, de bens materiais como sinal de prosperidade, a obrigação de ser primeiro em tudo, de ser "feliz" a qualquer preço.

Eu, que dou importância aos erros que cometi e aprendo com a dor, tenho medo do que será essa geração no futuro.

Mas o poema dos nosso dias não é "Cântico Negro", de José Régio, mas o "Poema em Linha Reta" de Pessoa: "Nunca conheci que tivesse levado porrada." Parece-me que todas as pessoas ao meu redor sempre foram campeãs em tudo.

Parabéns pelas reflexões do dia.
Um abraço sicero!

Geraldo Soares disse...

A Denise, enviou esse comentário por e-mail logo após ler o post:

Coloquei isto no Blog,mas não sei como fazer chegar ao destinatário.

Este filme, "Foi tudo um sonho" representa, entre outras faces, a de um projeto simplório de se ser alguém que se deseja seguindo os passos, tal como numa receita culinária, até retirar do forno o bolo fumegante, pronto para ser consumido com chá. A receita ou, como disse o Geraldo,"o sonho americano", consiste, no filme, em se casar, ter filhos, morar numa bela casa para onde se vai todos os dias vindo do trabalho com bom salário e num carro do ano. Eis a garantia de vida boa. A via é tão curta, que termina antes de se dobrar a esquina. Porque não funciona. Mas cadê a coragem para inventar seu próprio caminho, correndo a cada minuto o risco de se perder da manada e ficar só, no meio do descampado e não saber para onde ir? Os cavalos selvagens sabem viver nas pradarias. Cabe a cada um conhecer,se puder, e gozar, se quiser, sua própria liberdade. Mas aceito e respeito, como dizia meu pai naquela frase poderosa tipo "defendo até a morte teu direito de..." o caminho de cada um. Vivo ocupada com o meu. Vou fazer minha contribuição ao blog compartilhando um de meus poemas prediletos,de José Régio,"Cântico Negro", recitado por João Villaret.