quinta-feira, fevereiro 26, 2009

Chances


BINÔMIO
Gostaria de voltar a ser uma criança
Não prá recuperar o que eu era
Mas para compreender quem eu sou
Para poder ser pleno
Sentindo a simplicidade dos dias
Responsável apenas por viver

E hoje me vejo homem feito
Contemplando as distâncias
Sem ser distante
Escolhendo um caminho
Numa vida que segue o próprio curso.

Sangrando...
Sofrendo...
Sorrindo...
Crescendo...
Como se tudo
Tão de repente e aos poucos
Fosse outra vez o jogo.

Tá frio...
Tá quente...
Tá morno...

Quem não me descobre,
Nunca me vê.

fevereiro, 2009

segunda-feira, fevereiro 16, 2009

Para a Mariposa


As vêzes,
A claridade cega
E só há conforto na escuridão.

Nessa procura, 
Podemos nos perder
Seduzidos por qualquer luz.

Nesse momento equecemos 
Que vale  sorver o amargo,
Para perceber o valor do néctar
Além da doçura.

Estranhamento



Eu já deixei tantos lugares onde nunca estive...
Cada vez é mais fácil partir assim.

Sem ter que encontrar uma porta, 
Para descobrir a saída.
Sem ter que abrir uma janela,
Para ver o horizonte.
Sem ter que contar os passos,
Para medir um caminho.

Na bagagem eu levo apenas
O que há de valor.
Meus devaneios.

E Sorrirei, 
ao passar mais uma vez
Por aqueles olhos,
Agora tão estranhos.

Sorrirei,
Como se fosse um reencontro.

Fevereiro, 2009

domingo, fevereiro 15, 2009

Transcendência



Descobrir o fundo
Do abismo 
Sem cair.

Até cair 
Sem despedaçar
Juntar os pedaços.

Aprender-se
Libertar-se
Apesar de tudo
Com tudo.

Abismar-se
etéreo e forte
além da  escuridão
nem sempre apenas  luz
Cada vez mais
Pro fundo.

Até que um dia
O abismo e o além
É também superfície.

Permitidos os pássaros
Que levem o abismo
Para o mar...

segunda-feira, fevereiro 09, 2009

Estelação



Outro dia me veio à cabeça uma aula de português, dos tempos do primário, quando houve um teste surpresa sobre o coletivo das coisas: lobo / matilha, abelha / colméia, pássaros / bando, ilhas / arquipélago, etc. Eu não conseguia lembrar de jeito nenhum do coletivo de estrelas. Sem pestanejar, usei o teorema de chutágoras. Respondi: estelação. Um colega de turma riu um bocado de mim quando leu a minha resposta. Ele não foi capaz de notar a criatividade do chute. Para ele o que importava era o gol.
Para a maioria, certamente para aquele colega de escola de quem nem lembro mais  o nome, provavelmente só importam, de verdade, as ações bem sucedidas: os chutes certeiros. Acertar vale uma boa memória. Errar é frequentemente um motivo de trauma. Mas será que não é certo também que algumas coisas dêem errado. O errado não poderia apontar para as falhas do certo? Não vou fazer aqui a pergunta mais óbvia.
Talvez soe estranho para muitos ler isso sobre mim, já que eu não tenho exatamente do que reclamar na vida. E não tenho mesmo. Mas tenho sim os meus fracassos. Num mundo basicamente competitivo onde o brilho individual é tão valorizado, eu sinto esta estranha necessidade de admitir os meus fracassos e incompetências. Há uma infinidade de coisas que eu gostaria de ser ou fazer e que não sou, não serei, não sou capaz de fazer e nunca conseguirei fazer. Muitas dessas coisas eu faria até muito bem, mas faltaria tempo suficiente para a dedicação necessária. Admito as minhas limitações.
Admitir as próprias limitações... Qual a dimensão de um homem que admite os seus limites, a sua incapacidade? Em algum momento senti a necessidade de decidir entre as opções que a vida me oferecia durante a minha busca e escolhi. Foi simplesmente isso. A minha vida sempre foi assim - decidida - apesar dos medos e dúvidas. Por isso, ouvi conselhos e observei as histórias daqueles que me rodeavam. Tive (e continuo tendo) bons conselheiros - pais, professores, livros, amigos... Mas as minhas escolhas foram feitas por mim. Responsabilizo-me por absolutamente tudo: fracassossucessos, erros, acertos...
Quando eu olho ao meu redor, vejo que os iguais se atraem e se encontram. E isso me lembra o assunto dessa postagem.
Ah, o assunto desta postagem... Ele aparentemente perde-se em meio às minhas divagações da mesma forma que um astronauta sem nave a deriva no espaço. De repente a visão das estrelas o faz pensar que sempre, mesmo no meio do vazio e da escuridão, há luz. Eu estava pensando nos meus amigos, cada um brilhante a sua maneira, como se fossem estrelas com sua escuridão ao redor e por dentro. 
Foi essa imagem cheia de poesia que me provocou, como diria Rubem Alves, a coceira para escrever sobre esse algo indecifrável que eu havia percebido. Sim, indecifrável, pois não consigo ainda - e talvez nunca consiga - compreender os mistérios que evolvem o mistério que me inspira e que, em última instância, é o motivo pelo qual sempre escrevi. Percebi que não é apenas o brilho dos meus amigos que me atrai. Sinto-me atraído por uma escuridão que todos eles projetam e que não carece daquela luz vulgar que se pode olhar sem o risco da cegueira. A capacidade de escolher depende muito da coragem de lançar-se nesta escuridão. Admiro-os sinceramente pelas suas escolhas, até mesmo aquelas aparentemente mal-sucedidas. Admiro-os pelas tentativas, buscas e desejos. Tenho um grande orgulhoso da constelação que eu pertenço.

quinta-feira, fevereiro 05, 2009

Ismália



Como ela foi citada na postagem anterior, "Desencantamento", achei bom explicar de onde veio Ismália. Ismália, vive no seu sonho eterno num dos mais belos poemas do Simbolismo. Relendo-o pela enésima vez lembrei-me do protagonista da marchinha de chamada "Estrela do Mar". Engraçado lembrar disso bem na época do carnaval... E eu nem sou tão carnavalesco assim.
Fiquei imaginando o que a Ismália tem em comum com o "grão de areia" da marchinha. Sonhadores são loucos que não desistem de sonhar. Eles que são a mola mestra do mundo. Realizar é apenas sobreviver. Sonhar é movimentar a vida, é viver.
Eu sei que não há exatamente uma novidade nisto. Eu, como tantos antes de mim e muitos depois, tenho sonhos. E chamar os meus sonhos de sonhos é uma licença poética. Quem sonha de verdade não se refere ao sonho como /sonho/. Um sonho para um sonhador é quase um projeto: é um convite.  É a tentativa de tirar a vida das linhas e posiciona-la nas entrelinhas, no que não está escrito. 
Por isso quando eu digo alguma coisa -  por exemplo, eu amo - não há apenas o que foi dito. Eu falo como quem escreve com a língua e nem tudo é somente o que foi dito: há o que veio antes; o que poderá ir além; o que não poderá ser; o que nunca vai deixar de ser. Há também o que é. Mas nunca há um muro ao redor.

Enxergar estas infinitas dimensões da vida é verdadeiramente "sonhar".

Aproveitei e transcrevi também a marchinha no final desta postagem. 

Ismália 
(Alphonsus Guimarães)
Quando Ismália enlouqueceu,
Pôs-se na torre a sonhar...
Viu uma lua no céu,
Viu outra lua no mar.

No sonho em que se perdeu,
Banhou-se toda em luar...
Queria subir ao céu,
Queria descer ao mar...

E, no desvario seu,
Na torre pôs-se a cantar...
Estava perto do céu,
Estava longe do mar...

E como um anjo pendeu
As asas para voar...
Queria a lua do céu,
Queria a lua do mar...

As asas que Deus lhe deu
Ruflaram de par em par...
Sua alma subiu ao céu,
Seu corpo desceu ao mar...


Estrela do Mar
(Marino Pinto e Paulo Soledade)
Um pequenino grão de areia
Era um eterno sonhador
Olhando o céu viu uma estrela
Imaginou coisas de amor
Passaram anos muitos anos
Ela no céu ele no mar
Dizem que nunca o pobrezinho
Pôde com ela se encontrar
Se houve ou se não houve
Alguma coisa entre eles dois
Ninguém pode até hoje afirmar
O certo é que depois
Muito depois
Apareceu a estrela do mar.

quarta-feira, fevereiro 04, 2009

Desencantamento


O desencantamento é que faz o sapo virar principe. Essa idéia me veio a cabeça ontem, enquanto eu conversava com a Denise. Tinhamos acabado de sair do cinema e a nossa fome nos guiou para um pequeno restaurante reservado que ela muito aprecia. Nossas conversas, sempre proveitosas me fazem pensar. E muito. Há nesses encontros todos os tipos de alimento. Saio sempre satisfeito.
O filme (Revolution Road - que ainda não concluí se era bom ou ruim) falava no fim de tudo do abandono do "sonho pessoal" pelo "coletivo", no caso "o sonho americano" pós segunda guerra. Percebi no filme um desencantamento disfarçado. Percebi personagens tristes se esforçando para parecerem felizes. 
No meio da conversa sobre o filme começamos a falar da vida alheia. De tanta gente feliz & frustrada que conhecemos. E eu comecei a pensar num muro, meio inclinado, com umas vigas postas precariamente para sustentá-lo. Pensei no esforço que se faz para sustentar o que está prestes à ruir.
Há nitidamente para mim uma tensão, não só física, entre as vigas e a queda. E toda a viga que sustenta um muro cujo o destino é cair retarda a mudança. É assim conosco. Com nossos ideias além do muro inclinado que não mais sustenta o seu próprio peso. Estamos presos, mas a imagem provável dos escombros nos abomina. Por isso preferimos adiar o fim inevitável meio a uma pequena revolução aqui e ali. 
Lembro que, no meio do filme, me veio à minha cabeça a recente eleição norte-americana. Até então eu não tinha pensado muito nela. Confesso que não tinha entendido muito bem a euforia de todos - desculpem-me. Mas o filme americano, com todos tão branquinhos, me fez questionar a profundidade de uma revolução que tem como ícone um presidente negro num pais de maioria (econômica) ariana com muros em queda apesar de todas as vigas que se tem colocado. Acho que foi mera associação livre. Porém, se o perigo do sapo é virar príncipe, o perigo do ícone é virar mártir. E o mártir é um ser tão especial que nos redime da falta de sentimento revolucionário.
Mas onde está a nossa revolução? Onde está a mudança? Onde está o nosso "Barak Obama Primeiro Presidente Negro dos Estados Unidos" (Salve, Salve!). Olho pro Obama e fico me perguntando se há nele algo mais branco além dos dentes impecáveis e o entorno das pupilas negras. Minha desconfiança só aumenta quando leio nos jornais o elogio ao seu terno impecável de príncipe e sua princesa sempre correta a beijá-lo com comedimento e roupas adequadas ao momento - nem mais nem menos. Começo a perceber toda mudança que se oferece a este mundinho com o mesmo olhar desconfiado do sapo que conscientemente foge do beijo da princesa. O que há por trás desse beijo? Quais são suas reais (sim reais) intenções? Mas fico feliz. Sou brasileiro e aqui, os "sapos" são presidentes faz algum tempo.
Imagino que os sapos sejam insones e notívagos como eu. Adoro noites vagas e se soubesse como, coxaria para uma lua indiferente em qualquer lago calmo e brilhante como um espelho. Mas, provavelmente, eu ficaria na dúvida para qual lua coaxar. A lá de cima, real, ou a sua imagem fuidamente bela refletida no lago. Ah, Ismália, como eu te entendo! E você nunca foi sapo. Como eu entendo também os sapos coachando renitentes no seu encantamento. Sapos, como todos, de olhos sempre abertos e bocas imensas e insilenciáveis. 
E, se não fosse bastante toda a conversa em torno do filme girar em círculos amplos de divagações que me inspiraram tantas analogias que eu nem lembro mais, eis que a lembrança do Homem Revoltado do Camus coachou na minha mente, enquanto a Denise derrubava um copo d'água na mesa. Dar voz a um sapo renitente fez de Camus um imcompreendido para os príncipes da sua época. Acredito que essa imcompreensão continue até hoje. Deram-lhe até título de príncipe, mas acho que ele se manteve fiel até morrer à sua memória das noites de lacustre boemia. 
É aconselhavel não ser um revoltado. Lembro bem desse conselho. Mas como acreditar nas revoluções feitas pelos príncipes?
Li outro dia que, devido as mudanças climáticas globais, os anfíbios estão sob forte perigo de extinção. Temo ao imaginar um mundo futuro dominado por príncipes e vazio de sapos.



Addendum
A Denise acaba de ler esta postagem e me enviou isso* por e-mail. Acho que vale a pena ouvir. Obrigado Dionísia!

segunda-feira, fevereiro 02, 2009

Ponte Fixa


Ontem eu acordei
Com dor de dente n'alma.
O dentista achou que a solução
Para o meu problema
Fosse uma ponte fixa.

Fiquei horas
Observando o rio lá embaixo...
A água muito fria
Desencorajou o salto.

Deus ex machina


À flor da necessidade,
Uma folha seca flutua no rio
Que de tão lento caminha -
Cada vez mais distante o limite...

A margem de tudo o Adônis adormece,
Encenando a indiferença
Pelo prazer que poderia ter sido.
(O ato interrompido na suposição do ato) 

Sem título


O braço estendido
o corpo ao largo do leste
(ontem ainda é luz)
............................................
Existem homens que amam
como se estivessem pedindo perdão
existem homens que amam...
Outros
seduzem deus. 

Julho 1990