sexta-feira, janeiro 16, 2009

Confins do Abismo



Ah, Hilda! Não que esse fosse o meu projeto de vida. Mas anoiteci também. Anoiteci quando essa escuridão caiu sobre mim, negra como a noite que te rodeia. Anoiteci quando me dei conta que a poesia não atravessa escudos. Eu me movi de mim e encontrei essa barreira. Se o amor nega a morte, é certo também que a morte desconhece amor e a vida assim pede o esquecimento. 
A chama acendeu-se mais uma vez. Mas quando a chama apaga, pra que serve o calor que não viveu além do desejo - que nem lembrança é? Há quem não veja o ato cruel do braço que sustenta o escudo e afirma a morte. Vejo a sombra do escudo, do braço... mesmo a luz mais tênue torna-os visíveis. 
Sim, há crueldade aqui sim. Não me confundiram as sombras criadas por essa luz mortiça. A mão por trás do escudo regozija-se com o seu poder. O seu poder está em alheiar o coração do mundo. E nem se precisa de muita força para empunhar o escudo. 
Então, só háverá amor quando as mãos estiverem vazias. Mas o que será do homem quando abdicar do seu único bem? Seria necessário antes se descobrir. Mas o caminho da descoberta esbarra com a com a sedução do belo que imita a beleza, com a ilusão. E protegido pelos escudeiros há uma legião de iludidos.
Pois há os que lidam com a beleza como se ela fosse um bem. Mas a beleza não se pode conter nos limites da posse. Murcha à sombra dos escudos. Ela se vai, sempre. E se a beleza atravessa os escudos e todas as barreiras impostas pela ignorância, até o olho mais cego é capaz de percebê-la. Até o coração mais negro e perdido deseja o belo - mesmo sem sabê-lo, enganado pelas sombras que temem as entrelinhas. Mas possuir o belo é limitar a beleza. E a posse do belo, por que é uma mentira, ameaça todo amor. 
Sim, Hilda. Como entendo essa imagem, esse buraco na pedra nos confins do abismo.  Por causa dela publiquei meu abismo - uma cicatriz aberta que expõe profundezas e liberta da dor. De onde os pássaros alçam vôo para além do amor, da beleza, dos escudos... 

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