sábado, janeiro 31, 2009

Mensagem na garrafa



Pequenas coisas movem o meu coração. Herdei esse jeito de sentir as coisas e nem sei de quem. Sei que nasci assim. Um pequeno gesto chama a minha atenção. Um sorriso... Um olhar de dúvida. Uma palavra não dita. Tudo é capaz de me deter, quando eu amo realmente. Algo como uma fé, misto de esperança e com um quê de ansiedade me toma e me transforma. Conheço todos os sinais do que eu sinto. 
Sei agora que você está distante agora com seus silêncios e suas marés. Tudo ao redor parece tão grande e intransponível. Mas eu estou aqui (confesso não sei por quanto tempo ou como) esperando.
Como o ilhéu, náufrago, manda a sua mensagem aletoriamente pelo mar, eu aguardarei o que virá trazido pelas ondas.
Apenas me deterei - por enquanto...

"Porque te amo
Deverias ao menos te deter
Um instante

Como as pessoas fazem
Quando vêem a petúnia
Ou a chuva de granizo."

(Hilda Hilst)

sexta-feira, janeiro 30, 2009

Fantasia



O dia hoje amanheceu sorrindo...”
As pessosa cantam.
Até as pedras sorriem.
Tenho vontade de andar virando cambalhotas,
Mas não consigo virar cambalhotas.
Então, eu penso.

Eu amo alguém
e, talvez, ele até me ame.
Quem sabe?
Desejo muito estar junto
Mas o encontro é (quase) impossível.
Então, eu sonho.

Ontem foi carnaval.
Mudei de roupa,
tranquei a fantasia no armário...
Abro a porta e nada mudou.
Enquanto penso, adormeço.

Junho, 1987

quinta-feira, janeiro 29, 2009

Serotonina


Ser ou
Não Ser:
Primeira pergunta
Eterna questão
A infelicidade ?!
Pouco mais
Do que não ter a resposta
E tão pouco
Porque, tristeza
É falta de serotonina.

Sem título


Quanto mais eu penso
Menos eu sinto
O peso de pensar.

Mas a musculatura dos sentidos
Esforça-se para sustentar
(Apenas) minh’alma.

E como dói
Esse encontro inevitável
Com as matérias do Mundo !

janeiro, 2008

Limite


Nada
Possui exatamente um sentido
(Homem nenhum irá além...)
O que resta é o nossso limite
Um abismo entre o pensamento
E a natureza das coisas.

março, 1995

quarta-feira, janeiro 28, 2009

Clássico desafino



Hoje é o dia da fuga
Da fuga da fuga
Da mais efetiva das fugas
A fuga de si mesmo
Então
Hoje o dia da mentira
Da maior de todas as mentiras
Fugir de si mesmo
(Apenas um engano)

junho, 1987

quarta-feira, janeiro 21, 2009

Seriados



De tanto ler Rubem Alves veio na minha cabeça uma analogia entre pessoas e coisas. O Rubem é um mestre em fazer analogias. Desse jeito ele deixa claro o seu sentimento e a sua compreensão das coisas.
Este "post" tem haver também com uma conversa que eu tive a pouco, pelo Skype, com o Bruno. Conversar com ele me fez recordar os tempos bons quando ele estava presente e bem perto. Agora longe, como eu percebo o presente que ele é na minha vida desde que eu o conheço. O tempo tem dessas coisas. Mas ele não se fez seriado... Já imagino o Bruno me perguntando: "O que vc está querendo dizer, Geraldo?" Mas ele nunca perguntaria.
Bem, então voltemos a "vaca fria". Os seriados têm capítulos, temporadas... Alguns duram anos, outros são bem curtos. Mas sempre acabam. A gente se envolve com eles, ajustamos nossos horários, criamos uma rotina de encontro. Isso dura algum tempo, mas sempre acaba.
Hoje vejo o encontro com algumas pessoas da minha vida como um seriado. Há toda essa preparação para "acompanhá-los" e por mais que se seja fiel e constante essas pessoas chegam um dia que esgotam a sua história - pelo menos com a gente. Eles chegam ao fim. As vezes como se tivessem sido tirados do ar. Simplesmente findam. E a tentativa de mantér a série no ar é sempre desastrosa. A história perde o conteúdo. Fica sem pé e sem cabeça.
Não percebemos, mas alguns encontros não são nada mias do que isso:   um momento e depois cada um segue em frente seu próprio caminho. Alguns "encontrados" simplesmente param ou tomam outro rumo onde não cabemos. Talvez até nos encontremos no futuro - por vezes esses reencontros são permeados por uma sensação de reprise. vale a pena ver de novo, alguns diriam. Mas antes que olhar isso com trizteza, acho devemos respeitar e lembrar desses encontros com um sentimento histórico. Em algum tempo, pelo menos, aquele acontecimento foi um marco. Teve um significado. 
Bem, meu sentimento nostálgico me faz (inutilmente) pensar que tudo poderia ser diferente.
Mas isso é simplesmente apego e costume. Não mudei de idéia sobre o fim das coisas. Nem sobre a importância da memória de tudo. 

segunda-feira, janeiro 19, 2009

Sem título


Ultimamente tenho contemplado a vida, com o coração vazio. Nenhuma espectativa. O sol me aquece. A chuva molha meu rosto. O tempo apenas passa. Dou me conta que tudo é como deve ser e será assim. Há em tudo isso uma grande noção de finitude. 
Todo fim é necessário - seja dor ou alegria.
Ora, não há nenhuma descoberta nisso. Apenas certo dia, ao acordar, firmei esse acordo tácito comigo mesmo - não procurar mais a fênix meio as cinzas. Fogo apagado não se repete. Não existe retorno, nem recomeço. Só o novo é justo com a vida. 
Então, admito tudo, tudo, tudo, exceto voltar. E a minha frente está o meu caminho. E é por ele que devo continuar. É por ele que eu devo me renovar.
Passando meus dias repleto da minha consciência.
Passando meus dias a ler o meu coração;
Passando meus dias.
Dias que não me passam.

Aos pés do grifo


Mistérios não há
No desconhecido
(Com os olhos fechados)
Recupere o inaudível.

Julho, 1990

Michelangelo de Caravaggio


Até mesmo teu amigo distante...
Sim, meu querido Michele, até eu
Me julguei abandonado pela vida
Na tentativa de criar o impossível....

Seja então possível o vermelho
Que tu vistes sangrar
Sobre o tecido das tramas
No vermelho retinto do meu sangue.

Setembro, 1989

Vertigem


Sinto saudades de você no centro da cidade.
Aqui, onde o meu coração anda prá todos os lados
Como uma multidão sem pernas...
Caminho um tanto oblíquo,
Olhando pros edifícios
Que parecem Torres de Pizza
Contudo, não é tristeza ou a dor da perda
(Já passou do meio-dia)
É fome !
Então eu entro numa pizzaria,
Peço uma calabresa
E enxugo os olhos com um guardanapo

Setembro, 1988

sábado, janeiro 17, 2009

Sem título


Viver neste Mundo incompreensível
É, muitas vezes,
como morder a casca de uma romã...
Sente-se o gosto adstringente
Da realidade dos outros.

setembro/1994

Todas as cores do camaleão


Não me queira o mesmo
A todo momento
Não queira de mim
Sempre o mesmo amor...

Eu
Sou mutável
E o meu sentir
Tem pele de camaleão

novembro, 1990

Cavaleiro das pequenas causas


Sou um homem de afetos.
Não esperem de mim ações precisas
Sou um hoemem de afetos, apenas...
Contudo, sou um raciocinador
Se não alcanço, não amo.
Toda distância tornou-se
(para mim)
Nada mais que isto:
/Distância/
Falam-me de guerras
De ausências de afeto
O que vejo são pactos de morte
Conveniências silenciosas, distantes
Oferecem-me uniforme, espada, escudo
Oferecem-me desafios
(Inutilmente)
Não empunho bandeiras,
Há muito abandonei as armas
E hoje sou simplesmente
Um “cavaleiro” das pequenas causas.

junho, 1994

sexta-feira, janeiro 16, 2009

Confins do Abismo



Ah, Hilda! Não que esse fosse o meu projeto de vida. Mas anoiteci também. Anoiteci quando essa escuridão caiu sobre mim, negra como a noite que te rodeia. Anoiteci quando me dei conta que a poesia não atravessa escudos. Eu me movi de mim e encontrei essa barreira. Se o amor nega a morte, é certo também que a morte desconhece amor e a vida assim pede o esquecimento. 
A chama acendeu-se mais uma vez. Mas quando a chama apaga, pra que serve o calor que não viveu além do desejo - que nem lembrança é? Há quem não veja o ato cruel do braço que sustenta o escudo e afirma a morte. Vejo a sombra do escudo, do braço... mesmo a luz mais tênue torna-os visíveis. 
Sim, há crueldade aqui sim. Não me confundiram as sombras criadas por essa luz mortiça. A mão por trás do escudo regozija-se com o seu poder. O seu poder está em alheiar o coração do mundo. E nem se precisa de muita força para empunhar o escudo. 
Então, só háverá amor quando as mãos estiverem vazias. Mas o que será do homem quando abdicar do seu único bem? Seria necessário antes se descobrir. Mas o caminho da descoberta esbarra com a com a sedução do belo que imita a beleza, com a ilusão. E protegido pelos escudeiros há uma legião de iludidos.
Pois há os que lidam com a beleza como se ela fosse um bem. Mas a beleza não se pode conter nos limites da posse. Murcha à sombra dos escudos. Ela se vai, sempre. E se a beleza atravessa os escudos e todas as barreiras impostas pela ignorância, até o olho mais cego é capaz de percebê-la. Até o coração mais negro e perdido deseja o belo - mesmo sem sabê-lo, enganado pelas sombras que temem as entrelinhas. Mas possuir o belo é limitar a beleza. E a posse do belo, por que é uma mentira, ameaça todo amor. 
Sim, Hilda. Como entendo essa imagem, esse buraco na pedra nos confins do abismo.  Por causa dela publiquei meu abismo - uma cicatriz aberta que expõe profundezas e liberta da dor. De onde os pássaros alçam vôo para além do amor, da beleza, dos escudos... 

Virtude



Há o risco de se perder
Não há nenhum caminho
Mas o que detém sempre são dúvidas

E as duvidas são o oposto da ternura
A ternura é certa de si mesma
Não se importa para onde 
dispensa os mapas e as geografias dos mistérios

Não há amor, 
generosidade maior do due não haver dúvidas
O coração que quer se entrega
E feliz do coração que não tem posses
Pois tudo é entrega.

Agosto, 2008

Fortuna



Perdi a propriedade do meu amor
Há muito não o tenho
Amo com um amor que não me pertence

Não há sorte, meu deus
Só o desenho dos meus arcanos
Não há sorte
Prefiro caminhar girando
Não há sorte
Desenhei a roda da minha fortuna

Andei por muitas terras desconhecidas
Desvendei a alegria dos cem mistérios
Caminhei com um coração repleto de alegria
Caminhei girando e voltei ao início de tudo
E o início de tudo também é passagem

Quem eu carreguei comigo
Com que braço me recebeu na volta?
Se me perco me perdeu
A roda da fortuna gira
Se me perdeu eu sempre me re-encontro
A roda da fortuna gira
Se me perdeu eu sempre te re-encontro
A roda da fortuna gira
Não há sorte

Só há a intenção do encontro
Não há sorte

agosto, 2008

Iniciação


“Tudo toca como despertador...
F.S.

Tão pouco tempo e tanto
Que o retrato nem mudou
A vida mudou a moldura
Os relógios pararam

E as perguntas são horas
A dimensão das coisas são elas próprias
A dimensão das coisas são possibilidades
Tal e qual o sono de um sonho acordado
Acordado, inteiro e lúcido.

Acordado, pois tudo toca
Sonho tão mais intensamente
Quanto à medida do que perdi
E o que aprendi de antes
Percebi ao despertar.

Deixei de medir o tempo.
Respondo as horas.

julho,2008

segunda-feira, janeiro 12, 2009

sexta-feira, janeiro 09, 2009

Criação



Sou um homem encantado
Pelo mito do místico...
Se decifrei mistérios
Sempre quis desconhecer
Em tudo o que há
O mistério.

Sonho
Com tal convicção
(Em sonhar mas não no sonhado)
Que por vezes não sei
Se vivo o que vejo
Ou simplesmente
Sinto a realidade.

fevereiro, 1997

As duas Orelhas de Van Gogh



A Orelha de Van Gogh I

Certos dias
A profundidade da solidão
Impede ouvir
Algo mais que o desespero

março, 1995
----------------------------------
Orelha de Van Gogh II

E o desespero
É um dragão que não cospe fogo
Ele sussurra girassóis
Em toda orelha sem corpo
Que flutua perdida
Nas reentrâncias d'alma.

abril, 1995

terça-feira, janeiro 06, 2009

Noli proicere margaritas ante porcos?


Nunca gostei deste conselho: "Não se deve jogar pérolas aos porcos..." Ele sempre me irritou. Sempre vi algo de mesquinho aí. E hoje, comecei o dia satisfeito ao ver a expressão "jogar pérolas aos porcos" corrompida na poesia do José Miguel Wisnik:

Eu jogo pérolas aos poucos ao mar
Eu quero ver as ondas se quebrar
Eu jogo pérolas pro céu
Pra quem pra você pra ninguém
Que vão cair na lama de onde vêm

Eu jogo ao fogo todo o meu sonhar
E o cego amor entrego ao deus dará
Solto nas notas da canção
Aberta a qualquer coração
Eu jogo pérolas ao céu e ao chão

Grão de areia
O sol se desfaz na concha escura
Lua cheia
O tempo se apura
Maré cheia
A doença traz a dor e a cura
E semeia
Grãos de resplendor
Na loucura

Eu jogo ao fogo todo o meu sonhar
Eu quero ver o fogo se queimar
E até no breu reconhecer
A flor que o acaso nos dá
Eu jogo pérolas ao deus dará

O Fábio me enviou pela manhã o vídeo com essa canção linda. Ela me fez pensar muito sobre a força que há em não desistir nunca de mostrar beleza para qualquer um, sem discriminação. Sempre, sempre, sempre. Lutar contra o veneno da desilusão. Ao contrário do que falam os desiludidos, sonho não é ilusão. Sonho é um projeto que se projeta muito alto. Prefiro acreditar num sonho do que numa realidade dura, estagnada que serve a um propósito perverso: manter os corações tristes e sem esperança. Esses corações são bons prisioneiros, são servis. Não questionam, não querem ser livres.

Muito já foi escrito para criticar aqueles que acreditam que construir um sonho é mais que sonhar. Se existe uma possibilidade absurdamente boa, por que ela não pode vir a ser real? Por que é tão difícil acreditar nos crédulos, nos artistas, nos poetas? Gostei da maneira que o José se apropria da expressão "jogar pérolas aos porcos" e a recria. Gosto dessas atitudes subversivas.

É muito fácil jogar pérolas para quem já aprecia as pérolas. Não há muito mérito nisso. Por outro lado, como pode ser desafiante jogar pérolas aos porcos. Quão grandioso é o coração daquele que não se apropria das pérolas, oferece a todos, inclusive aos "porcos" e acredita que eles podem (um dia) voar. 

Então, viva os educadores, os poetas, os artistas de qualquer tipo! Viva aos que doam! E mais viva ainda aos amantes apaixonados que amam, apesar de todo sofrimento e não desistem do seu amor! Que eles me inspirem sempre. Que eu sempre distribua as pérolas que eu tiver. Que eu não seja dono das minhas pérolas. E quando eu for porco - todo mundo é porco algum dia -  eu tenha alguém que lute por mim e me mostre que eu tenho asas pra voar.