quarta-feira, dezembro 10, 2008

Merry Go Round



Como num carrossel, Vicky e Cristina partem com o mesmo olhar da cena inicial. O final da história  sugere um retorno à vida de antes de Barcelona. Para elas antes e depois se marca mais por um lugar do que por um tempo - Barcelona é a própria marca do tempo. O unico sinal perceptível de todos acontecimentos é a faixa na mão direita de Vicky, protegendo aquela ferida feita pelo tiro de raspão disparado por Maria Elena. Uma ação violenta - e se entenda aqui o valor da violência e da loucura - sempre inibe a origem possível de outra ação. Vicky, recém casada,  desce as escadas rolantes do aeroporto acompanhada pelo marido que representa mais do que nunca o pacto com retorno ao lugar seguro de antes. Cristina, os acompanha sozinha e talvez mais ciente da mudança. Juan e Maria Elena - a personificações de Barcelona, do encontro apaentemente negado por todos - ficam para trás. Assim termina Vicky Cristina Barcelona de Woody Allen.

Grandes acontecimentos não significam grandes mudanças imediatas. A alma humana, conservadora, tende a voltar para o mar tranquilo do tédio cotidiano. É sempre assim depois de uma tempestade. Sempre se busca outra vez o mar tranquilo. Mas quando se olha com mais cuidado se tem dúvida. Será que esse Mar tranquilo existe é o mesmo?

Apesar do retorno frustrante para esse lugar seguro, onde não há nenhum porto, quem retorna não é o mesmo. Sempre há, por menor que seja, um desvio - uma pequena fresta na casca protetora da alma que inevitavelmente se expõe à mudança.

E as grandes mudanças,  são o acúmulo dos pequenos desvios na alma anterior.
E, a partir desse ponto o pacto com a infelicidade não se faz ao lutar com a mudança. Esse acordo silencioso se estabeleve na tentativa de "ignorar" a mudança e todas as suas evidências.

La Pedreira (Pátio Interno - Barcelona)

Um comentário:

Daniela disse...

Como pode vc ter conseguido descrever tão genuinamente o Meu sentimento!? Deve ser pq, claro, não é só meu he he he mas pra mim parecia ser!