sábado, novembro 01, 2008

Sem Título


Sonhei minhas 13 mortes. Sonhei acordado enquanto você escolhia a morte branca por entre os carros de foróis apagados. O dia salpicava máguas nos girasóis, orvalho vermelho, boca vermelha, sangue sem cor. Meu avó moribundo distribuia balas num cruzamento. Crianças cegas se atiravam num rio de pó. Esse é o mundo lá fora. Lá onde nos querem. Nada temos o que fazer.

Sonhei minhas 13 mortes e quando acordei dois lagos de pura esmeralda vertiam luz multicor. Meus olhos cegos não questionavam tanta luz. Não sorríamos. Não falávamos. Nossa mudez se chamava por muitos nomes. Nem nós nos entendíamos. Só nós ouvíamos o silêncio de tantos corpos meus já sem vida. O que tanto desejei, quase perdido, sublimava em vapores verdes voláteis. Esse é o mundo que trazemos conosco. Lá onde poderíamos querer. O que temos a fazer?

Sonhei minhas trezes mortes e no sonho recitava meu último verso fúnebre de adeus. Morri tantas vezes em sonho, esquecendo o temor de viver em cada momento, que fui feliz. Descobri a morte, não o contrário a vida. Morre-se para viver. Morte e vida são sinonímias. portanto, não há vida. A vida assim concebida é só ilusão. Nem morte é. E cada dia que morro, minha esperança se renova como se eu fosse tomado por algum outono que me amarelasse as folhas, retendo em mim o verde da estação seguinte que um dia também mudará, fenecerá e me fará parecer partir.

Sonhei minhas treze mortes e agora te aguardo ressurgir entre os seus dilemas e dúvidas. Te espero não morto porque comprendi que devo esperar. Comprendi antes. Compreendi tão lentamente que não perdi nada ao morrer. E morreria de novo. E sonharia sem medo.

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