sexta-feira, novembro 07, 2008

Se Eu me Chamassse Alceu...



Ontem cheguei a conclusão que realmente sou um romântico, idealista  & sonhador... Apaixonado eu queria convencer o meu amor de que o amor vale a pena. Aaah! Se eu me chamasse simplesmente Alceu e fosse personagem de um poema do Drummond não seria tão irreal. "Ler tanto vai acabar estragando a cabeça desse menino." Dizia a minha pobre avózinha no alto de sua sabedoria premonitória. E estragou. As vezes olho pro mundo e o que vejo me causa um espanto quase infantil, por vezes até um pouco sentido. 

Então me refugio nos Drummonds, Pessoas, Bandeiras, Hilsts, Meirelles e até mesmo num Bachelard de vez em quando. Devaneio também é filosofia diz o velho com sua barba branca na foto do livro. Mas não importa onde, o que importa é que de vez em quando me refugio. Pode ser algo que nem foi escrito e aí o refúgio é se perceber.

O Benito, amigo recente - que as vezes parece negar ser um outro buscador - me presenteou com: "Pode se perder o amor, mas não se perde a capacidade de amar." O Betô (Robertson, não resisti) - que já encontrei no abismo pouco mais de um mês atrás - me presenteou com seus dois livros de poesias não publicados e abriu para mim o diário da recente viagem a Portugal. 

Gosto de me refugiar em mim mesmo, no meu abismo. E abismar-se tem sido minha expressão. E o abismo tornou-se altar da minha memória e também uma privada - em ambos os casos, fundo e sagrado. Este abismo é onde a dureza da pedra encontra a matéria fluída do ar. No abismo os pássaros mergulham os pensamentos sem medo, por que lá fica o seu ninho, o abrigo tão necessário. Lá no fundo, bem  lá no fundo é onde eu me sinto tão real... 


Lá se vai Alceu, voltado para o futuro,
Para um sol de infinita duração.
Lá se vai Alceu, sem as melancolias do passado
Que para ele tinha a forma de um casarão azul,
E sem as ilusões adolescentes do progresso.
Julga-se ouvir no seu trânsito
Os acordes da sonata para piano e violino de Cesar Franck
Que tanto ele amava.

Seu claro riso e humana compreensão e universal doçura
Revelam que pensar não é triste.
Pensar é exercício de alegria
Entre veredas de erro, cordilheiras de dúvida,
Oceanos de perplexidade.
Pensar, ele o provou, abrange todos os contrastes
Como blocos de vida que é preciso polir e facetar
Para a criação da pura imagem:
O ser restituído de si mesmo,
Contingência em busca da transcendência.

Lá se vai Alceu: as letras não o limitam
No paraíso da sensibilidade das palavras
Que substituem coisas e sentimentos,
Diluindo o sangue de existir.
Para além das letras restam indícios mais luminosos
De uma insondável, solene realidade
De muitos tentam aproximar-se
Com a cegueira de seus pontos de vista
E a avidez de sua insatisfação.

Alceu chega bem perto do foco incandescente
E não tem medo.
Sorri. Venceu o conformismo
Com a classe, a carreira, a biografia.
Alceu, radiante espelho
De humildade e fortaleza entrelaçadas.
Não chora as ruínas da esperança.
Com elas faz uma esperança nova
De que a justiça não continue uma dor e um escândalo
De incrível raridade,
E sim atmosfera do ato de viver
Em liberdade e comunhão.

Lá se vai Alceu, gentil presença,
Convívio militante entre solidões de idéias
Cada vez mais fechadas – e ele aberto
Aos ventos do mundo, à decifração do lancinante
Anseio de instituir a paz interior
No regaço da paz exterior:
Anseio de homens
Desencontrados, tontos, malferidos
No horror da vida escrava do azinhavre
De moedas viciadas no Poder da Terra.

Alceu tão frágil no seu grande corpo
Que não comanda os rumos da aventura
Mas adverte, ensina, faz o gesto.
Que anima a prosseguir e a procurar
A mais exata explicação do homem
E lá se vai Alceu, servo de Deus,
Servo do Amor, que é cúmplice de Deus.
(Carlos Drummond de Andrade)

Um comentário:

FRIZERO disse...

Se tu te chamasses Alceu,
Deus meu!,
não seria uma rima,
meu irmão,
nem uma solução!