domingo, novembro 30, 2008

Minh'alma lusa


Desde que me lembro, eu tenho uma simpatia natural por tudo que é portugês: comida, música, literatura... Muitas das minhas primeiras lembranças de infância remetem á Portugal: bacalhoada, rabanadas e castanhas portuguesas no Natal; o galinho de Barcelos, daqueles que mudam de cor se há chuva ou sol,  que havia na casa da minha avó materna; o buço da minha mãe... 

Desde os 14 anos, o meu poeta favorito, é Álvaro de Campos - um dos heterónimos de Fernando Pessoa. Na prosa literária José Saramado é, sem dúvida um dos meus preferidos. Aliás, acredito que a versão cinematográfica de "Ensaio sobre a Cegueira" acaba com as dúvidas sobre a universalidade que permeia o olhar português. Em 1996, quando conheci o Madredeus através do filme "Lisbon History", ele passou a ser um dos meus grupos musicais preferidos. Meus olhos enchem de lágrimas ao ouvir a voz da Teresa Salgueiro cantar  "O Pomar das Laranjeiras".

Então, este ano resolvi que já era hora de fazer uma grande viagem de férias para a Europa. Resolvi também, por motívos óbvios, que minha porta de entrada no velho continente seria Portugal. E apesar de prever um magnífico começo de viagem, nem nos meus sonhos mais delirantes eu poderia imaginar um encontro comigo mesmo mais intenso, profundo e marcante. 

Fiquei apenas algumas horas em Lisboa e, exceto por uma noite, apenas minhas malas dormiram no Hotel Eduardo VII, próximo a praça do mesmo nome. Fui "vítima" da hospitalidade portuguesa personificada pelo Angelo e pelo Miguel.  Com eles não vi somente o Portugal dos Turistas. Vi o portugal daquelas gentes todas ao mesmo tempo tão desconhecidas e tão familiares. Passamos o primeiro dia passeando pelos seus locais prediletos em Lisboa, mas no final desse mesmo dia veio o convite para viajar para o Porto. Aceitei imediatamente. Quão bela é foi a primeira visão daquela cidade de sobrados coloridos encaixados um ao lado do outro à margem do Rio D' Ouro. Na outra margem se podia ver a Vila Nova de Gaia e as caves. Atravessamos o rio e, olhando aquela paisagem filtrada por um cálice de vinho do Porto, pude confirmar mais uma vez o meu reencontro. Andamos pela cidade, e tudo provocava fascinação. e eu estava feliz por poder brindar esse momento de várias maneiras - com cerejas, com vinho do Porto com Maria Mansa, com a alegria do encontro.

E foi comendo cerejas, com os olhos cheios d'água na escadaria do Mercado Bolhão, que o Angelo me falou que eu tinha a alma lusa. Enquanto ele falava, fiquei imaginando como o tempo é uma dimensão infinita - sem começo, sem fim. Eu, de novo abismado, com o pouco tempo que levou para alguém desvendar a alma que me leva e que me define como sou. Na alma lusa cabe um tristeza sem mágoas, tristeza irmã gêmea da alegria pois é também contentamento. 

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