sexta-feira, outubro 03, 2008

Primeira Infância



Ciente de mim desde muito cedo, fui uma criança solitária. Fui amado pelos meus pais - disso eu nunca tive dúvidas. Mas me sentia muitas vezes como um astronauta flutuando no espaço, sem nave. Percebi muito precocemente que havia uma distância entre o filho que eles tinham e o filho que eles julgavam ter. Desde então, um dos meus desafios foi percorrer essa distância. Eu mesmo queria saber o filho que eu era e a minha vocação investigativa me fez procurar as respostas. E quando descobri o significado das letras tive a certeza certeza que essa resposta estaria escrita em algum lugar.

Logo fiquei muito atento a tudo o que havia com letras e as minhas "experiências" das coisas eu tomava emprestado dos livros. Lembro-me da perplexidade dos meus sentimentos diante das pessoas. Sempre aquela desconfortável sensação de não saber onde por as mãos em público - cruzar os braços, por as mão no bolso, relaxar os braços, tamborilar os dedos para parecer relaxado e descontraído - muitas vezes não sabia o que fazer com as minhas emoções. Ler era, ao mesmo tempo, um refúgio e a fonte para o meu manual de sobrevivência para a selva assustadora de sensações. Afinal de contas, o que não estava nos livros?

Quando eu não estava na escola, gostava de ficar sozinho por horas. Nesses momentos solitários eu podia alternar a leitura e a observação incansável de alguma coisa que ninguém, além de mim mesmo, poderia achar algum interesse. Descobri que era possível ler inclusive quando as palavras estavam ausentes. Nesse tempo não era muito difícil encontrar no quintal que circundava a nossa casa algo que ocupasse horas da minha atenção de "leitor"- coisas tão interessantes como aquelas que eram construídas pelas letras - um ninho de marimbondos de cabeça vermelha, folhas secas de diversas formas e tamanhos, os despojos ocos de uma cigarra, lagartas multicoloridas, insetos de asas transparentes, crisálidas douradas, pedrinhas de diversos tamanhos e formas. Lembro das semanas dedicadas às escavações arqueológicas da cidade perdida das formigas ao pé do coqueiro. Essas coisas escreviam histórias. Observar o mundo assim era realmente como ler livros.


Meus presentes favoritos nos aniversário e natais eram, sem dúvida, os livros. Certa vez, percebendo que os primos já me olhavam como um traidor do ideal juvenil, resolvi pedir um presente mais tradicional, antes que fosse vítima de alguma represália. Pedi um carro de bombeiros com sirene e parabrisas. Secretamente também pedi também um kit do pequeno químico e um brinquedo genial chamado de "espirograf". Esse brinquedo era constituido de uns discos e reguas denteados como engrenagens com furos onde se encaixava a ponta de canetas para fazer desenhos incríveis (canetas e papeis estavam incluidos no pacote). Lembro-me de ter ganho nesse ano todos os presentes que pedi - em casa éramos premiados pelo bom desempenho no colégio com um presente extra de natal - o "presente de passar de ano". Não sei o que fiz com o carro de bombeiros, mas lembro da sirene vermelha guardada em alguma gaveta por anos.

Lembro-me também do meu primeiro contato com a poesia. Um volume de "Poemas Para a Juventude" das Edições de Ouro. Poesias não contam simplesmente as histórias, revelam sentimentos. E o meu maioir interesse nas histórias era tentar saber o que as pessoas sentiam, como sentiam, e a prosa não é tão explicita nessa qualidade como a poesia. A poesia transcende a historia e consegue revelar a sensação pura da alma frente ao indescritível e por vezes indecifrável. Minha empolgação com esse tipo de texto foi tanta que identifico isso como meu primeiro apaixonamento na vida. Lembro que a leitura era infinita, incansável e pletora de prazer. Fiquei tão feliz com a descoberta que acabei decorando um poema para a festa de final de ano na escola. Pela promeira vez consegui superar a minha timidez e o meu desconforto com a exposição pública. Recitei aqueles versos com uma voz pausada e confiante. Toda minha timidez deu lugar a um exibicionismo apaixonado e feliz. Esse sem dúvida foi um dos grandes momentos da minha infância sem grandes aventuras, mas que me cabe tão bem.

Canção Tonta

Mama.
Eu quero ser de prata.

Filho,
Terás muito frio.

Mama.
Eu quero ser de água.

Filho,
Terás muito frio.

Mama.
Borda-me em teu travesseiro.

Isso sim!
Agora mesmo!

(Garcia Lorca)

2 comentários:

Bruno disse...

Eu não tinha o Espirograf, mas tinha a versão "genérica", chamada Riorita...
E sempre gostava de usar o "Pequeno Quiímico e depois o Grande laboratório Quimico Juvenil, para fazer sangue do diabo e algumas misturas que as vezes ficavam fedorentas...

Raul disse...

"Certa vez, percebendo que os primos já me olhavam como um traidor do ideal juvenil, resolvi pedir um presente mais tradicional antes que fosse vítima de alguma represália."

Eu ri LITROS aqui ! Nossa, você me fez lembrar do meu "Pequeno Químico" - logicamente, o meu era com a capa diferente.