quinta-feira, outubro 02, 2008

Ensaio Sobre a Visão

Foto: Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (Seropédica, RJ)

Há alguns anos li "Ensaio Sobre a Cegueira" do Saramago. Há algumas horas assisti a sua versão cinematográfica. Muito além do mérito literário do filme, da fidelidade ou não com o livro, o reencontro com essa história me fez pensar mais uma vez. Ando ultimamente num estado semelhante ao frenesi analítico - aquele de quando se faz terapia e ela mexe no nervo da maneira precisa, fazendo-o pulsar quase no limiar da dor. Tudo tem tocado que nem despertador.

Recentemente tenho me confrontado com a minha miopia, minha dificuldade de enxergar determinadas coisas. A imagem da cegueira branca, da cegueira que não é escuridão me levou a repensar a minha capacidade de "ver". Por um vício imposto pela nossa cultura associamos ao desconhecimento as trevas, a escuridão. Mas me dei conta que também nos deparamos com o desconhecimento e a ignorância no alto da nossa clareza sobre tudo. Tão claro que ofusca. Claridade excessiva cria sombras em excesso. Mas continuamos a confiar apenas no que é luz.

Fomos acostumados a valorizar demais a nossa visão das coisas. Por isso vemos demais. Mas o quanto da nossa opinião sobre as coisas e pessoas não é prejudicada pela visão? O que se vê, em geral, é superfície. Nossos olhos não ultrapassam certas barreiras. Mas, quase que universalmnete, a humanidade julga baseada no que vê e mesmo as vistas mais aguçadas se deparam com o drama descrito pelo Saramago no seu ensaio sobre a visão. Será que me enganei com o nome do livro e do seu filme homônimo? No fim de tudo, aquela era uma história sobre a cegueira ou sobre a visão? Não era uma alegoria sobre as suas imperfeições, limitações, enganos - enfim, sobre sua precariedade? Imperfeiçoes, limitaçoes, enganos e a precariedade de quem vê. Por outro lado, seria a cegueira parte da visão?

Num dado momento, enquanto assistia o filme me lembrei de um dos hábitos, digamos, incomuns que eu tinha quando cursava a universidade. Eu estudava num Campus enorme em Seropédica, RJ (eu cursava Engenharia Agronômica na UFRrJ). Por alguns semestres eu fui monitor da disciplina de Química Analítica - o que já me fazia um "estranho" entre os alunos da meu curso - e quando saia do Instituto de Química para as minhas aulas da graduação escolhia o jeito mais interessante para mim que não era exatamente o mais prático. Eu atravessava a pé uma grande área gramada interrompida pistas asfaltadas até chegar ao Instituto de Biologia ou até a estrada de acesso para o Instituto de Agronomia. Uma caminhada de vinte minutos ou mais, dependendo de qual dos dois Institutos seria o meu destino final. Chegava sempre atrasado uns 10 minutos nas aulas . Fazia esse caminho (ida e volta) várias vezes por semana, as vezes mais de uma vez por dia. Tantas vezes que num determinado dia, de sol muito forte, eu resolvi fechar os olhos. No início fechava os olhos em intervalos curtos por causa do sol... Depois foi ficando interessante e até divertido. Alguns segundos passaram a ser um minuto, dois talvez. À medida que eu ia adquirindo confiança no meu conhecimento daquele caminho, conseguia manter meus olhos fechados por períodos cada vez mais longos. Não lembro o meu recorde, mas andava muitos metros sem enxergar o caminho. Era um misto de viagem interior com ensaio científico. Lembro da sensação, era incrível... Os outros sentidos se aguçando. Os sons, os cheiros... A sensação do sol e do vento batendo no rosto. Além dos eventuais tropeços, era incrível não ter acontecido nenhum acidente mais grave. O único incoveniente era sair as vezes do outro lado do gramado num ponto muito distante daquele que eu havia planejado. Como meio ao gramado haviam baixadas do terreno do Campus, nas épocas chuvosas formavam-se uns charcos. Lembro-me do estranhamento dos colegas os verem meus tênis e barras de calças molhados ou sujos de lama.

Não sei quanto tempo isso tudo durou. Simplesmente um dia parei de fazer aquela caminhada mais solitária, os dias começaram a ficar muito cheios de atividades e urgências... Aí eu tive que lançar mão de meios mais eficientes de locomoção para chegar as aulas do que atravessar a pé e as cegas o grande gramado.

Bem, agora mesmo eu me pergunto o que essa história toda, essa digressão, tem haver com o ensaio sobre a cegueira? No romance do Saramago a maioria dos personagens foram momentâneamente acometidos por uma cegueira incomum e branca - entre eles um personagem caolho e um oftalmologista. Há também uma personagem "imune" a cegueira que, devido as circunstãncias - tem que se fingir cega e um cego que finge ter ficado cego como os outros e aproveita-se disso para dominar os outros cegos. O que eu penso disso tudo me parece até muito óbvio, tão óbvio que desconfio que era essa realmente a intensão do Saramago em escrever esse livro. A nossa cegueira é não dar atenção ao óbvio, ao simples, ao que podemos resolver sem consultar os sábios videntes e suas filosofias. Todos somos iguais na nossa cegueira branca. Pomos em risco as nossas vidas & almas por não enxergar a simplicidade da solução dos nossos problemas simples. Como é poderoso o efeito acumulativo das pequenas ignorâncias que nos privam da visão. E em meio ao desastre iminente que nos reserva um um futuro - que por ser futuro pode-se adiar - a tragédia real é mais sutil. É nesse contexto que a cegueira - por mais assustadora que possa parecer - torna-se uma benção. Amaldiçoados sejam todos os que vêem.


Nenhum comentário: