domingo, outubro 12, 2008

Associação Livre



Ao assistir "Alma Imoral" fui (novamente) tomado por um estado de consciência alerta. Uma fluência do pensamento que eu bem conhecia - de repente eu estava ali, porém num espaço particular e transcendente da platéia. Eu assistia atentamente todo desenrolar da ação dramática que dava corpo a um sentido de alma que eu busquei por anos.

Cada frase magistralmente articulada pela Clarice Niskier adentrava meus ouvidos com precisão cirúrgica, porém o que entrava não era exatamente o que era dito. Comecei a pensar em monólogos. Pensar como alguém que conta para si mesmo alguma história composta por uma infinidade de histórias, conectadas umas as outras através de um corolário de símbolos e lembranças. Mas era ela que incitava aquela reação. Eu estava particularmente atento ao efeito do que eu ouvia.

Sou um homem de 42 anos completamente tomado pelo amor que sente. Amor que é atual e o somatório de tudo que vivi - todas as tentativas, encontros e desencontros. E, confesso, não há maturidade melhor do que essa. Aliás, amar assim tão destemidamente me impede de sentir o peso dos anos. Anos sem pesos. Anos flúidos e fugidios. Passaram tão rápido vividos tão intensamente. Sorrio com a alma imponderável... Mas onde eu pus minha alma nesses anos todos?  Onde ela vive? Essa é a questão que mais do que ser respondida, tem que ser admitida.

Acredito que simplesmente a minha alma quer se perpetuar no amor que eu sinto. Nada para mim é mais prazeiroso do que ser reconhecido por isso. No meu trabalho, na minha poesia, quando cozinho, em tudo há essa intensão. Como já disse uma vez, sou um homem de afetos. 

As vezes me vejo como um ser de alma antiga e arrebatada que sempre busca se compreender e ser compreendido. Isso deve ser o que o Angelo chamou de alma lusa... Lembro dele falar com seu sotaque e doçura inconfundíveis quando conversávamos sobre a vida admirando o Rio D'Ouro passar: "Geraldo, tu tens uma alma lusa."  Num primeiro momento, quando se ouve isso, a gente confunde a alma lusa com uma alma melancólica. Mas não é. Há uma profunda alegria nessa busca infinita pelo sem peso. E essa alma lusa também é imoral e transgressora. Por isso não tenho o menor medo de me expor. Não nego o que sinto. E sou completamente responsável pelas consequencias. 

E eu olhava o amor da Clarice brotando de todos os poros... exposto ali na nudez e nas palvaras. Eu lembrava da minha infância, dos amigos, da viagem a portugal. Lembrava de cada encontro com a minha alma. E ao mesmo tempo eu admirei e invejei a Clarice por não ter aquela forma de expressão para expor o meu amor que borbulhava ali no escuro. Senti-me de certa forma desafiado. Como uma voz nas entrelinhas das falas que dizia: "Por que você não tenta também?" E eu me perguntava... Tentar o que? E de repente compreendi o desafio. E o aceitei.

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