quinta-feira, outubro 23, 2008

Epistola ao Unicórnio


Sei o que há de ti
Para além deste sono.

Quem te criou como uma fábula
Só queria te aprisionar...

E agora que a vida te revela novamente
Andaria firme da tua coragem
Não fosse o medo de ser real.

Quem mais será atraído pelo teu sonho?
Quem mais vai ter que acordar?

Out, 2008

Némesis


Ao homem não foi dada
A capacidade de voar.

Sem a confiança no fio invisível
Não há vôo.

Resta ao homem
A cegueira do visível.

Os homens invejam os pássaros
E o meu voar não tem chão.

Out, 2008

sábado, outubro 18, 2008

Só um poema antigo


Tenho insônia há alguns anos. As vezes ela me incomoda. Mas algumas vezes, como é o caso, não. A noite é propícia ao pensamento e vou longe... As vezes eu não faço nada. Fico  Apenas acordado, sorvendo essa tranquilidade que a noite traz. 

Aproveitei esta vez para reler uns textos que escrevi há anos atrás. Textos ainda datilografados de uma fase anterior ao computador... Escrito numa noite de insônia:

Novelo

Um risco, um traço
Rabisco algo no papel / rasgo
Tento engolir o poema / engasgo
Tento fugir / não dou um passo

Sozinho nesse pesadelo
Na cabeça estranhas lembranças
Um dançarino em sua esquisita dança
Um gato desenrolando o novelo

Olho então pra lua (cheia e amarela)
Nela vejo do sol o reflexo
Escrevo algumas frases sem nexo
E jogo o papel pela janela.

abril, 1984


domingo, outubro 12, 2008

Associação Livre



Ao assistir "Alma Imoral" fui (novamente) tomado por um estado de consciência alerta. Uma fluência do pensamento que eu bem conhecia - de repente eu estava ali, porém num espaço particular e transcendente da platéia. Eu assistia atentamente todo desenrolar da ação dramática que dava corpo a um sentido de alma que eu busquei por anos.

Cada frase magistralmente articulada pela Clarice Niskier adentrava meus ouvidos com precisão cirúrgica, porém o que entrava não era exatamente o que era dito. Comecei a pensar em monólogos. Pensar como alguém que conta para si mesmo alguma história composta por uma infinidade de histórias, conectadas umas as outras através de um corolário de símbolos e lembranças. Mas era ela que incitava aquela reação. Eu estava particularmente atento ao efeito do que eu ouvia.

Sou um homem de 42 anos completamente tomado pelo amor que sente. Amor que é atual e o somatório de tudo que vivi - todas as tentativas, encontros e desencontros. E, confesso, não há maturidade melhor do que essa. Aliás, amar assim tão destemidamente me impede de sentir o peso dos anos. Anos sem pesos. Anos flúidos e fugidios. Passaram tão rápido vividos tão intensamente. Sorrio com a alma imponderável... Mas onde eu pus minha alma nesses anos todos?  Onde ela vive? Essa é a questão que mais do que ser respondida, tem que ser admitida.

Acredito que simplesmente a minha alma quer se perpetuar no amor que eu sinto. Nada para mim é mais prazeiroso do que ser reconhecido por isso. No meu trabalho, na minha poesia, quando cozinho, em tudo há essa intensão. Como já disse uma vez, sou um homem de afetos. 

As vezes me vejo como um ser de alma antiga e arrebatada que sempre busca se compreender e ser compreendido. Isso deve ser o que o Angelo chamou de alma lusa... Lembro dele falar com seu sotaque e doçura inconfundíveis quando conversávamos sobre a vida admirando o Rio D'Ouro passar: "Geraldo, tu tens uma alma lusa."  Num primeiro momento, quando se ouve isso, a gente confunde a alma lusa com uma alma melancólica. Mas não é. Há uma profunda alegria nessa busca infinita pelo sem peso. E essa alma lusa também é imoral e transgressora. Por isso não tenho o menor medo de me expor. Não nego o que sinto. E sou completamente responsável pelas consequencias. 

E eu olhava o amor da Clarice brotando de todos os poros... exposto ali na nudez e nas palvaras. Eu lembrava da minha infância, dos amigos, da viagem a portugal. Lembrava de cada encontro com a minha alma. E ao mesmo tempo eu admirei e invejei a Clarice por não ter aquela forma de expressão para expor o meu amor que borbulhava ali no escuro. Senti-me de certa forma desafiado. Como uma voz nas entrelinhas das falas que dizia: "Por que você não tenta também?" E eu me perguntava... Tentar o que? E de repente compreendi o desafio. E o aceitei.

sexta-feira, outubro 03, 2008

Primeira Infância



Ciente de mim desde muito cedo, fui uma criança solitária. Fui amado pelos meus pais - disso eu nunca tive dúvidas. Mas me sentia muitas vezes como um astronauta flutuando no espaço, sem nave. Percebi muito precocemente que havia uma distância entre o filho que eles tinham e o filho que eles julgavam ter. Desde então, um dos meus desafios foi percorrer essa distância. Eu mesmo queria saber o filho que eu era e a minha vocação investigativa me fez procurar as respostas. E quando descobri o significado das letras tive a certeza certeza que essa resposta estaria escrita em algum lugar.

Logo fiquei muito atento a tudo o que havia com letras e as minhas "experiências" das coisas eu tomava emprestado dos livros. Lembro-me da perplexidade dos meus sentimentos diante das pessoas. Sempre aquela desconfortável sensação de não saber onde por as mãos em público - cruzar os braços, por as mão no bolso, relaxar os braços, tamborilar os dedos para parecer relaxado e descontraído - muitas vezes não sabia o que fazer com as minhas emoções. Ler era, ao mesmo tempo, um refúgio e a fonte para o meu manual de sobrevivência para a selva assustadora de sensações. Afinal de contas, o que não estava nos livros?

Quando eu não estava na escola, gostava de ficar sozinho por horas. Nesses momentos solitários eu podia alternar a leitura e a observação incansável de alguma coisa que ninguém, além de mim mesmo, poderia achar algum interesse. Descobri que era possível ler inclusive quando as palavras estavam ausentes. Nesse tempo não era muito difícil encontrar no quintal que circundava a nossa casa algo que ocupasse horas da minha atenção de "leitor"- coisas tão interessantes como aquelas que eram construídas pelas letras - um ninho de marimbondos de cabeça vermelha, folhas secas de diversas formas e tamanhos, os despojos ocos de uma cigarra, lagartas multicoloridas, insetos de asas transparentes, crisálidas douradas, pedrinhas de diversos tamanhos e formas. Lembro das semanas dedicadas às escavações arqueológicas da cidade perdida das formigas ao pé do coqueiro. Essas coisas escreviam histórias. Observar o mundo assim era realmente como ler livros.


Meus presentes favoritos nos aniversário e natais eram, sem dúvida, os livros. Certa vez, percebendo que os primos já me olhavam como um traidor do ideal juvenil, resolvi pedir um presente mais tradicional, antes que fosse vítima de alguma represália. Pedi um carro de bombeiros com sirene e parabrisas. Secretamente também pedi também um kit do pequeno químico e um brinquedo genial chamado de "espirograf". Esse brinquedo era constituido de uns discos e reguas denteados como engrenagens com furos onde se encaixava a ponta de canetas para fazer desenhos incríveis (canetas e papeis estavam incluidos no pacote). Lembro-me de ter ganho nesse ano todos os presentes que pedi - em casa éramos premiados pelo bom desempenho no colégio com um presente extra de natal - o "presente de passar de ano". Não sei o que fiz com o carro de bombeiros, mas lembro da sirene vermelha guardada em alguma gaveta por anos.

Lembro-me também do meu primeiro contato com a poesia. Um volume de "Poemas Para a Juventude" das Edições de Ouro. Poesias não contam simplesmente as histórias, revelam sentimentos. E o meu maioir interesse nas histórias era tentar saber o que as pessoas sentiam, como sentiam, e a prosa não é tão explicita nessa qualidade como a poesia. A poesia transcende a historia e consegue revelar a sensação pura da alma frente ao indescritível e por vezes indecifrável. Minha empolgação com esse tipo de texto foi tanta que identifico isso como meu primeiro apaixonamento na vida. Lembro que a leitura era infinita, incansável e pletora de prazer. Fiquei tão feliz com a descoberta que acabei decorando um poema para a festa de final de ano na escola. Pela promeira vez consegui superar a minha timidez e o meu desconforto com a exposição pública. Recitei aqueles versos com uma voz pausada e confiante. Toda minha timidez deu lugar a um exibicionismo apaixonado e feliz. Esse sem dúvida foi um dos grandes momentos da minha infância sem grandes aventuras, mas que me cabe tão bem.

Canção Tonta

Mama.
Eu quero ser de prata.

Filho,
Terás muito frio.

Mama.
Eu quero ser de água.

Filho,
Terás muito frio.

Mama.
Borda-me em teu travesseiro.

Isso sim!
Agora mesmo!

(Garcia Lorca)

quinta-feira, outubro 02, 2008

Ensaio Sobre a Visão

Foto: Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (Seropédica, RJ)

Há alguns anos li "Ensaio Sobre a Cegueira" do Saramago. Há algumas horas assisti a sua versão cinematográfica. Muito além do mérito literário do filme, da fidelidade ou não com o livro, o reencontro com essa história me fez pensar mais uma vez. Ando ultimamente num estado semelhante ao frenesi analítico - aquele de quando se faz terapia e ela mexe no nervo da maneira precisa, fazendo-o pulsar quase no limiar da dor. Tudo tem tocado que nem despertador.

Recentemente tenho me confrontado com a minha miopia, minha dificuldade de enxergar determinadas coisas. A imagem da cegueira branca, da cegueira que não é escuridão me levou a repensar a minha capacidade de "ver". Por um vício imposto pela nossa cultura associamos ao desconhecimento as trevas, a escuridão. Mas me dei conta que também nos deparamos com o desconhecimento e a ignorância no alto da nossa clareza sobre tudo. Tão claro que ofusca. Claridade excessiva cria sombras em excesso. Mas continuamos a confiar apenas no que é luz.

Fomos acostumados a valorizar demais a nossa visão das coisas. Por isso vemos demais. Mas o quanto da nossa opinião sobre as coisas e pessoas não é prejudicada pela visão? O que se vê, em geral, é superfície. Nossos olhos não ultrapassam certas barreiras. Mas, quase que universalmnete, a humanidade julga baseada no que vê e mesmo as vistas mais aguçadas se deparam com o drama descrito pelo Saramago no seu ensaio sobre a visão. Será que me enganei com o nome do livro e do seu filme homônimo? No fim de tudo, aquela era uma história sobre a cegueira ou sobre a visão? Não era uma alegoria sobre as suas imperfeições, limitações, enganos - enfim, sobre sua precariedade? Imperfeiçoes, limitaçoes, enganos e a precariedade de quem vê. Por outro lado, seria a cegueira parte da visão?

Num dado momento, enquanto assistia o filme me lembrei de um dos hábitos, digamos, incomuns que eu tinha quando cursava a universidade. Eu estudava num Campus enorme em Seropédica, RJ (eu cursava Engenharia Agronômica na UFRrJ). Por alguns semestres eu fui monitor da disciplina de Química Analítica - o que já me fazia um "estranho" entre os alunos da meu curso - e quando saia do Instituto de Química para as minhas aulas da graduação escolhia o jeito mais interessante para mim que não era exatamente o mais prático. Eu atravessava a pé uma grande área gramada interrompida pistas asfaltadas até chegar ao Instituto de Biologia ou até a estrada de acesso para o Instituto de Agronomia. Uma caminhada de vinte minutos ou mais, dependendo de qual dos dois Institutos seria o meu destino final. Chegava sempre atrasado uns 10 minutos nas aulas . Fazia esse caminho (ida e volta) várias vezes por semana, as vezes mais de uma vez por dia. Tantas vezes que num determinado dia, de sol muito forte, eu resolvi fechar os olhos. No início fechava os olhos em intervalos curtos por causa do sol... Depois foi ficando interessante e até divertido. Alguns segundos passaram a ser um minuto, dois talvez. À medida que eu ia adquirindo confiança no meu conhecimento daquele caminho, conseguia manter meus olhos fechados por períodos cada vez mais longos. Não lembro o meu recorde, mas andava muitos metros sem enxergar o caminho. Era um misto de viagem interior com ensaio científico. Lembro da sensação, era incrível... Os outros sentidos se aguçando. Os sons, os cheiros... A sensação do sol e do vento batendo no rosto. Além dos eventuais tropeços, era incrível não ter acontecido nenhum acidente mais grave. O único incoveniente era sair as vezes do outro lado do gramado num ponto muito distante daquele que eu havia planejado. Como meio ao gramado haviam baixadas do terreno do Campus, nas épocas chuvosas formavam-se uns charcos. Lembro-me do estranhamento dos colegas os verem meus tênis e barras de calças molhados ou sujos de lama.

Não sei quanto tempo isso tudo durou. Simplesmente um dia parei de fazer aquela caminhada mais solitária, os dias começaram a ficar muito cheios de atividades e urgências... Aí eu tive que lançar mão de meios mais eficientes de locomoção para chegar as aulas do que atravessar a pé e as cegas o grande gramado.

Bem, agora mesmo eu me pergunto o que essa história toda, essa digressão, tem haver com o ensaio sobre a cegueira? No romance do Saramago a maioria dos personagens foram momentâneamente acometidos por uma cegueira incomum e branca - entre eles um personagem caolho e um oftalmologista. Há também uma personagem "imune" a cegueira que, devido as circunstãncias - tem que se fingir cega e um cego que finge ter ficado cego como os outros e aproveita-se disso para dominar os outros cegos. O que eu penso disso tudo me parece até muito óbvio, tão óbvio que desconfio que era essa realmente a intensão do Saramago em escrever esse livro. A nossa cegueira é não dar atenção ao óbvio, ao simples, ao que podemos resolver sem consultar os sábios videntes e suas filosofias. Todos somos iguais na nossa cegueira branca. Pomos em risco as nossas vidas & almas por não enxergar a simplicidade da solução dos nossos problemas simples. Como é poderoso o efeito acumulativo das pequenas ignorâncias que nos privam da visão. E em meio ao desastre iminente que nos reserva um um futuro - que por ser futuro pode-se adiar - a tragédia real é mais sutil. É nesse contexto que a cegueira - por mais assustadora que possa parecer - torna-se uma benção. Amaldiçoados sejam todos os que vêem.