sábado, setembro 27, 2008

Canção Amiga




Ontem teve janta na casa da Flávia. Além de nós dois foram convidados também a Denise e o Lauro (novo amigo, presente inesperado da saideira de aniversário). Encontrei-me antes com a anfitriã e fomos ao
super fazer rancho (amigos, engauchei). A Denise iria cozinhar, mas na última hora decidi eu mesmo pilotar o fogão e fazer uma "receita" que aprendi com o Fábio - massa com molho de gengibre. Houve, lógicamente, algumas modificações na "receita". Serve neste caso a máxima: "cozinhar é como fazer poesia." E a gente pode até se inspirar nos nossos poetas preferidos, mas nunca vamos escrever igual - o que chega a ser uma virtude.


Chegamos antes e começamos os trabalhos regados a um caménère chileno e muita conversa - quase não gostamos de conversar, eu e a Flávia. De repente a cozinha ficou apertada com tantos amigos invocados naquela hora. Logo juntaram-se a nós a Dionísia (o alter ego da Denise) e o Lauro com o seu bolo-de-rolo trazido do Recife. O vinho, o afeto, o cheiro do gengibre e a lembrança dos amigos presentes no afeto nos deixou meio embriagados. Jantamos ao som da Diane Schuur, uma vez que a Denise não nos deu a honra de suas cantorias a capela. Bem, ela estava muito ocupada. A massa, modéstia a parte, ficou divina.
Voltei para casa na alta medrugada. Dormi tranquilo... Acordei tarde, ainda com o torpor etílico dos bons vinhos da noite anterior. Aliás, bela combinação para acabar com qualquer insônia: bom vinho, boa coversa, boa comida, boa música.

Como tem sido costume nesses dias de folga, peguei meu café, o laptop e voltei para cama para ver se havia algum novo post no meu blog preferido: Segundo Ato - escrito pelo Bruno para manter os amigos informados sobre a sua grande jornada. Nenhum registro desde o dia 24. Reli todos os posts equanto bebia meu café e voltei ao texto escrito por ocasião da "despedida". O título do post foi emprestado de uma canção que ficou famosa na voz da Dionne Warwick, "That What Friends Are For". Por acaso, estava do meu lado o CD da Dionne que peguei emprestado em 2007 no dia em que assistimos juntos o Show no Teatro do Sesi. Reli o texto com o fundo musical apropriado e emocionei-me de novo. Percebi mais uma vez que as saudades serão muitas. Lembrei-me da Denise dizer que chegou a chorar em casa, no dia seguinte à partida do Bruno, pelo que ela definiu ser "saudades do gudussu".


Bem, por livre associação lembrei-me de um poema do Drummond, que há alguns anos foi musicado pelo Milton Nscimento. É engraçado como as imagens do afeto ficam pairando no ar e é só a gente lembrar de uma sensação que o matiz perfeito para lhe dar a cor se manifesta. E aí, a tristeza da saudade vira outro sentimento. Um sentimento que não tem nome. Além da alegria ou tristeza. A única palavra que me vem em mente é plenitude.


Canção Amiga
(Carlos Drummond de Andrade)
Eu preparo uma canção
em que minha mãe se reconheça
todas as mães se reconheçam,
e que fale como dois olhos.
Caminho por uma rua
que passa em muitos países.
Se não se vêem, eu vejo
e saúdo velhos amigos.
Eu distribuo um segredo
como quem anda ou sorri.
No jeito mais natural
dois carinhos se procuram.

Minha vida, nossas vidas
formam um só diamante.
Aprendi novas palavras
e tornei outras mais belas.
Eu preparo uma canção
que faça acordar os homens
e adormecer as crianças.

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